Este Blog retratará o descaso com a Defesa Civil no Brasil; a falta de políticas específicas; o sucateamento dos Corpos de Bombeiros; os salários baixos; a legislação ambiental benevolente; a negligência na fiscalização; os desvios de donativos e recursos; os saques; a corrupção; a improbidade; o crime organizado e a inoperância dos instrumentos de prevenção, controle e contenção. Resta o sofrimento das comunidades atingidas, a solidariedade consciente e o heroísmo daqueles que arriscam a vida e suportam salários miseráveis e péssimas condições de trabalho no enfrentamento das calamidades e sinistros que assolam o povo brasileiro.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

PPCI SEM O NOME DO RESPONSÁVEL

Imagem ilustrativa


ZERO HORA 02 de fevereiro de 2013 | N° 17331

SANTA MARIA 27/01/2013

Plano sem o nome do responsável


HUMBERTO TREZZI E JULIANA BUBLITZ

Policiais, engenheiros e peritos que investigam a morte de 236 pessoas na danceteria Kiss, em Santa Maria não encontraram o nome do responsável técnico pelo Plano de Prevenção e Combate a Incêndio (PPCI) da boate. Se ele existe, não consta no material enviado pelo Corpo de Bombeiros para a Polícia Civil.

– O PPCI existe, mas não está acompanhado de projeto de engenharia. Com isso, não há como os órgãos de fiscalização responsabilizarem um engenheiro. Tudo indica que os bombeiros autorizaram o plano assim e, agora, terão de informar porque permitiram que funcionasse uma danceteria sem saída, sem luzes de emergência visíveis e com reformas em um prédio que originalmente não era destinado a ser boate – pondera um dos investigadores.

O PPCI foi recebido pela Polícia na quinta-feira e repassado a peritos, que estão confrontando as informações com as coletadas no local. A ideia é comparar o que diz o plano e as reais condições da danceteria.

O PPCI da Kiss, conforme confidencia a Zero Hora uma pessoa que teve acesso ao documento, é uma versão simplificada, geralmente permitida a bares e outros locais sem grande afluência de público.

O plano teria sido assinado pela irmã de um dos donos da boate, Elissandro Spohr, o Kiko, com informações sobre como são as vias de escape e dispositivos antifogo da casa noturna. Bombeiros de todo o Estado estariam permitindo esse tipo de plano, sem assinatura de engenheiro. O problema, ressaltam engenheiros e policiais ouvidos por ZH, é que a Kiss não era um prédio pequeno e, muito menos, simples.

Deveria constar no PPCI da Kiss a Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), documento com informações técnicas sobre o prédio, assinadas por um engenheiro. Os peritos que examinaram o documento não encontraram a ART – ou seja, o PPCI não teria o responsável técnico.

Os policiais investigam se uma empresa de arquitetura realizou obras de decoração de interiores na boate. Essa empresa seria da mulher de um bombeiro reformado.


O QUE DIZ A LEI: O Decreto 38273/98, do governo do Estado, estabelece algumas normas para a elaboração do Plano de Prevenção e Combate a Incêndio (PPCI):

- Nas edificações com apenas um pavimento e que exigem somente prevenção por extintores, não há necessidade de Anotação de Responsabilidade Técnica (ART).

- Nas demais edificações, o documento é obrigatório.



ESPUMA DA MORTE


ZERO HORA 02 de fevereiro de 2013 | N° 17331

SANTA MARIA, 27/01/2013

JULIANA BUBLITZ E MARCELO GONZATTO

A sequência de acontecimentos que originou a tragédia da boate Kiss, em Santa Maria, será reproduzida em laboratório para esclarecer como a casa noturna se transformou em uma espécie de câmara de gás letal.

O Instituto-geral de Perícias quer saber qual foi a velocidade de propagação do fogo e o nível de liberação de elementos tóxicos desencadeados com a queima da espuma acústica apontada pela Polícia Civil como a principal causa do desastre.

Feito de poliuretano, o material de baixa qualidade presente no teto da Kiss é considerado altamente inflamável e teria liberado gás cianídrico em contato com o fogo – o mesmo utilizado pelos nazistas para exterminar judeus na II Guerra Mundial. A disseminação desse produto, 67 anos após o fim do conflito, agora deixa em situação de desespero pais, familiares e amigos de 236 mortos e 119 feridos em hospitais, que padecem pela inalação da substância incolor e inodora, mas mortífera.

A espuma, segundo o delegado responsável pelas investigações, Marcelo Arigony, potencializou o que poderia ter sido apenas um incidente:

– Isto foi a causa da morte. Onde não tinha espuma, quase não queimou.

Peritos coletaram retalhos do revestimento, conforme o delegado Sandro Meinerz, integrante da equipe de Arigony, a fim de submetê-los às mesmas condições que teriam deflagrado o drama.

Para isso, providenciaram ainda o mesmo tipo de artefato pirotécnico indicado como a origem do fogo – chamado de sputnik. O produto, aceso, será erguido a uma distância similar à que teria ficado no momento em que as chamas começaram a se propagar.

A partir desse momento, os técnicos vão cronometrar o ritmo de expansão das labaredas e medir a quantidade e o tipo de gás tóxico decorrente da queima. O resultado vai embasar com rigor científico a tese dos policiais de que o poliuretano empregado no sistema de tratamento acústico da Kiss é peça-chave para explicar o elevado número de vítimas.

A sucessão de falhas que levou ao desastre inclui outros fatores sob investigação como a superlotação no local, deficiências na sinalização e nas saídas de emergência.

Vídeos de celulares serão analisados

A reprodução vai determinar também o nível de resistência da espuma ao fogo. Revestimentos que contam com um aditivo destinado a retardar a propagação, mais caros, são mais seguros do que outros sem esse tipo de proteção. O engenheiro civil Gilmar Roth, especializado em projetos acústicos, considera, no entanto, que nenhum deles é completamente confiável.

– Não recomendo esse tipo de produto. Não é 100% seguro porque mesmo aquelas espumas chamadas antichama desprendem alguma quantidade de gás tóxico em contato com o fogo – sustenta.

Roth faz ainda um outro alerta:

– Se um tipo de adesivo não recomendado pelo fabricante for utilizado, o risco de incêndio se torna maior ainda.

O preço do metro quadrado dos melhores modelos de poliuretano com 50 milímetros de espessura e adesivo resistente ao fogo costuma chegar a até R$ 75, aproximadamente. Materiais sem as mesmas garantias podem ter custo a partir de R$ 45.

Integrante da comissão encarregada de periciar as condições de segurança no local da catástrofe, Marcelo Saldanha, membro do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea), afirma que foram identificados no local três níveis de materiais destinados a abafar o som. Acima do forro de gesso, havia uma camada de lã de vidro que evita a difusão do som para a vizinhança. Abaixo do gesso, colado a ele, estava a espuma.

– Inicialmente, havia o gesso e a lã de vidro. Mas, para evitar o eco que se formava no local, os proprietários decidiram acrescentar a espuma – revelou Saldanha.

A reconstituição prevista pela Polícia Civil terá ainda um outro elemento: os mais de 60 celulares das vítimas. Vídeos e fotos que tenham sido feitos no início do incêndio poderão contribuir para a reconstrução ainda mais fiel dos fatos.

– Alguém deve ter gravado as cenas, e a gente vai descobrir. É só uma questão de tempo – diz Meinerz.


ENTREVISTA - Um veneno de ação rápida

Miguel Dabdoub - Doutor em química orgânica e forense



Cientista e professor da Universidade de São Paulo, Miguel Dabdoub é doutor em química orgânica e forense, formado em Química Industrial pela Universidade Federal de Santa Maria. Dabdoub fala sobre o efeito do gás inalado por quem estava na boate Kiss e suas consequências.

Zero Hora – Por que os nazistas usavam esse tipo de gás?

Miguel Dabdoub – O poliuretano é produzido por dois elementos químicos: isocianato e poliol. Quando há reação dos dois, forma-se a espuma, até então inofensiva. Quando são queimados ou aquecidos, voltam a formar isocianato, o gás responsável pela tragédia de Bophal, na Índia, que matou mais de 8 mil pessoas em 1984. Em contato com a água, o veneno provoca o ataque químico. Ele reage com a água da nossa boca e do pulmão, causando danos respiratórios. Ao penetrar nos pulmões, ele entope os alvéolos, impedindo a passagem do oxigênio para a corrente sanguínea. Em Bophal, as pessoas morreram com a sensação de asfixia. O mesmo pode ter ocorrido em Santa Maria. O ácido cianídrico é o veneno de ação mais rápida que se conhece. Seu efeito é tão rápido que pode matar em um a dois minutos.

ZH – O material não deveria ser proibido?

Dabdoub – Tem que controlar seu uso. Os poliuretanos são largamente usados, em objetos como colchão, esponja, entre outros. É preciso evitar que se trate esses materiais como arma química. A questão da proibição deve ser discutida, pois tem que ser feita uma análise dos materiais construtivos. No caso dos isolantes acústicos, recomendamos o revestimento de óxido de alumínio ou compostos de fósforo.

ZH – Que efeitos tem o gás cianídrico no organismo?

Dabdoub – As pessoas que estavam na Kiss devem ter morrido a partir dos dois minutos após inalarem o gás. As pessoas que caíram na porta já chegaram em grave estado de inconsciência. Quem estava no local pode ter morrido no primeiro minuto. Pode ter sido o caso do banheiro, com a concentração de gás mais intensa. É importante dizer que o isocianato e o ácido cianídrico não irão matar as pessoas que estão internadas, pois a ação deles ocorre no momento do incêndio. Mas o isocianato se grudou em algumas partes do corpo, formando substâncias que ficam nos pulmões. Isso pode levar a problemas de médio e longo prazo.

ZH – Qual a concentração necessária no corpo humano para ser letal ?

Dabdoub – Para a pessoa que aspirou não morrer, a quantidade tem que ser muito baixa, pois a dose letal é muito pequena. Para o monóxido de carbono, o valor limite de tolerância para o corpo é em torno de 39 ppm (partes por milhão). No isocianato, entre 200 e 500 ppb (partes por bilhão). No caso do cianeto, precisa de 1mg por 1kg. Se for o gás ácido cianídrico, dois minutos são suficientes para mata quem respirar 0,3mg por litro de ar. O grau de letalidade é muito alto.


ENTREVISTA - “Não era uma fumaça comum”

Shelen Rossi - Estudante



A estudante Shelen Rossi, 19 anos, teria alta na quinta do Hospital de Caridade. O quadro de saúde evoluiu bastante, mas os médicos decidiram deixá-la mais tempo em observação. Ontem, ela contou o que sentiu ao respirar o ar com fumaça tóxica.

Diário de Santa Maria – Como você conseguiu sair da boate?

Shelen Rossi – A gente estava bem na frente, só que estava muito cheio e a gente resolveu ficar mais perto da porta para respirar melhor. Quando vi o fogo, já estava bem no finalzinho. Vi, mesmo, aquela nuvem de fumaça. Aí veio o pavor. Os seguranças fecharam as portas e começou aquele empurra-empurra. Caí no chão e alguém me arrastou para fora pelos cabelos.

Diário de Santa Maria –Após inalar a fumaça, você teve alguma sensação instantânea?

Shelen – Não era uma fumaça comum. Me fechou a garganta na hora. Tentei trancar a respiração ao máximo, porque logo vi que aquilo ali era muito forte. Acho que se eu respirasse mais um pouco não tinha resistido. O cheiro era muito, muito forte. Depois, quando eu comecei a tossir, a secreção parecia cinza de cigarro. Assustador.

BIANCA BACKES


Antídoto contra gás chega hoje

Chega hoje ao Brasil um medicamento injetável que pode reduzir os efeitos da fumaça tóxica no organismo dos pacientes internados nos hospitais gaúchos.

Vinda dos Estados Unidos, a hidroxicobalamina serve como um antídoto para o cianeto, elemento químico venenoso depositado no corpo dos jovens que aspiraram a fumaça tóxica contendo ácido cianídrico.

Pouco disponível no país, o material foi recomendado por médicos americanos durante teleconferência realizada ontem, reunindo médicos gaúchos, brasileiros e estrangeiros pelo serviço Telessaúde, do Ministério da Saúde.

Segundo Hugo Goulart de Oliveira, professor da Faculdade de Medicina e chefe da unidade de endoscopia respiratória do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, a substância age mais no início do problema, mas deverá ajudar no caso dos feridos de Santa Maria:

– O remédio ajuda a minimizar o efeito do cianeto no corpo. Mas como identificamos pacientes com níveis bastante elevados de cianeto, não se sabe se o efeito é imediato.

O antídoto injetável para tratar as vítimas de Santa Maria chega ao Brasil hoje cedo. O voo é o 243 da American Airlines, previsto para pousar às 9h50min no Aeroporto Internacional de Brasília. A Força Aérea Brasileira prepara uma operação para encaminhar imediatamente esses medicamentos para o Estado. Parte dele vai para a Capital e outra a Santa Maria.

LARA ELY


BUSCA DE RESPOSTAS - Investigadores compõem o quebra-cabeças que irá explicar como a tragédia aconteceu:

Quem é o fabricante da espuma usada para isolamento acústico na boate Kiss?
Por enquanto, não há informação oficial sobre isso.

Quem é o fornecedor da espuma?
Está em investigação pela Polícia Civil, que diz não saber ainda. O advogado Jader Marques, que defende Kiko Spohr, um dos proprietários da casa noturna, diz que Kiko contratou um engenheiro, que teria indicado “onde comprar”, mas não revela detalhes.

Quem instalou a espuma?
Segundo a Polícia Civil, o responsável pela instalação foi um barman da boate, cuja identidade é preservada. O delegado regional Marcelo Arigony afirma já ter ouvido o responsável, mas o depoimento é mantido em sigilo.

A espuma usada era mais barata?
Isso está sendo analisado pela perícia. Especialistas dizem que no mercado há modelos com aditivo de controle de chamas, que podem chegar a até R$ 75 o metro quadrado (50mm de espessura). Os modelos mais simples, sem esse detalhe, custam a partir de R$ 45 em média.

Se o sputnik usado fosse específico para ambientes internos, o resultado seria diferente?
Sim, já que esse equipamento é produzido para não provocar a combustão de produtos inflamáveis.



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

LEI COMPLEXAS E POUCO EFICIENTES


ZERO HORA 01 de fevereiro de 2013 | N° 17330

SANTA MARIA, 27/01/2013


Especialistas defendem uma revisão na legislação contra incêndios no país a fim de torná-la menos complexa, mais eficiente e com atribuições mais claras de responsabilidade. Atualmente, o conjunto de regras no país inclui normas nacionais e leis estaduais e municipais.

Para o coordenador do Comitê Brasileiro de Segurança Contra Incêndio no Rio Grande do Sul, Carlos Wengrover, a atual legislação é um “imbróglio” que combina recomendações nacionais da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), leis estaduais e, por fim, legislações aprovadas em cada município. Isso acaba facilitando o jogo de empurra entre autoridades de diferentes níveis e dificultando a compreensão das normas no processo de fiscalização.

Além disso, o especialista defende melhorias como a inclusão de prazos pré-determinados para que empreendedores se ajustem a correções solicitadas pelo Corpo de Bombeiros, por exemplo, que hoje podem variar caso a caso.

Em resumo, normalmente cabe às prefeituras avaliar o projeto arquitetônico, elétrico e hidráulico, a localização do empreendimento, condições sanitárias e ambientais, enquanto os bombeiros verificam itens como a existência de sinalização e saídas de emergência suficientes, extintores, e outros itens. Mas nem sempre essa divisão é muito clara.

O comandante do Corpo de Bombeiros, Guido Pedroso de Melo, afirma, por exemplo, que o revestimento das boates não faz parte da lista prévia de itens checados nas vistorias. A presença de espuma no teto da boate foi um dos principais motivos para a tragédia em Santa Maria.

– Revestimentos formam um item específico que nós avaliamos, mas, quando observamos algum material que possa representar risco, solicitamos parecer do engenheiro responsável para avaliar a segurança – afirma Melo.

A prefeitura de Santa Maria afirma que este item não faz parte das análises do município. Em Porto Alegre, um convênio formalizou a divisão de responsabilidades entre prefeitura e bombeiros, o que ajuda a evitar zonas de incerteza. Para Wengrover, isso deveria ser incorporado à legislação geral.

– É importante que a lei responsabilize quem é quem em todo o processo e seja mais simples e eficiente – afirma Wengrover.

Uma normatização mais racional, defende o Crea

O presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado (Crea), Luiz Alcides Capoani, também defende uma normatização mais racional das leis de incêndio:

– Precisamos de uma lei mais clara e simples.

Wengrover afirma que a lei estadual, por exemplo, prevê normas mais rígidas para prédios novos a partir de 1997, mas que construções anteriores podem se adequar na medida do possível e conforme avaliação de um responsável técnico e autorização do Corpo de Bombeiros.

MARCELO GONZATTO



FUNCIONÁRIOS NÃO SÃO TREINADOS CONTRA INCÊNDIO

ZERO HORA 01/02/2013 | 06h01

Casas noturnas não prestam treinamento contra incêndio a funcionários. Empresários que oferecem cursos de preparação contra fogo afirmam que raramente treinam equipes de boates

Caio Cigana

Casas noturnas da Capital praticamente ignoram o curso básico — Obrigatório para que o Corpo de Bombeiros libere o alvará de Prevenção e Proteção Contra Incêndio — que habilita funcionários a anteciparem e combaterem a propagação de fogo.

A falta de preparo coincide com o depoimento dos trabalhadores da boate Kiss, de Santa Maria, que disseram à polícia nunca terem recebido treinamento para manusear equipamentos de segurança.

Proprietários de empresas de Porto Alegre que ministram o Treinamento de Prevenção e Combate a Incêndio (TPCI) confirmam serem ínfimas as inscrições de funcionários de casas noturnas nos cursos, que, em geral, têm duração ao redor de cinco horas.

Alguns sequer lembram de alguém do ramo os ter procurado para aprender a prevenir e debelar focos de incêndio e auxiliar na evacuação com segurança dos locais. A obrigatoriedade de treinamento também consta no Código de Proteção Contra Incêndio de Porto Alegre.

— Não lembro a última vez que apareceu alguém de casa noturna. Parece que o pessoal está esperando ser notificado para tomar providências — diz o sócio-gerente da empresa Triad, Sérgio Antonio Cirne da Rocha.

Sindicato diz orientar boates a realizar a preparação contra fogo

O mesmo repara Júlio Cesar Guimarães Vicente, o proprietário da ABS Extintores, que também ministra cursos de TPCI.

— Pessoal de boate, não lembro. Parece que não estão fazendo, mesmo. Mas agora todo mundo está correndo atrás — conta Vicente.

Sócia da Estinsul, Bianca Schmitz Pires, revela que, nos últimos dias, também disparou a procura de empresas pela renovação de extintores. Mas a procura de boates para disponibilizar cursos de TPCI é mínima. Forçando a memória, admite lembrar de “um ou dois”.

— É raro — sentencia.

Orlando Rangel, presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio Hoteleiro e Similares de Porto Alegre, entidade que também engloba trabalhadores de boates e casas noturnas, diz que só de funcionários de hotéis e restaurantes maiores são treinados.

— Boates e casas noturnas, nunca ouvi falar. Pode até haver, mas acho que a maioria não faz — entende Rangel.

José de Jesus Santos, presidente do Sindicato da Hotelaria e Gastronomia de Porto Alegre (Sindpoa), garante que a entidade cumpre o papel de orientar e alertar boates e casas noturnas filiadas quanto à necessidade de cumprir a legislação.

— Só não posso interferir na gestão dos estabelecimentos — diz.

Segundo Santos, o Sindpoa está disposto a participar com o poder público de um amplo debate para redefinir a legislação sobre o tema e propor formas de agilizar a liberação de alvarás. O excesso de burocracia, afirma, abre margem para a existência de estabelecimentos que conseguem manter as portas abertas com liminares mesmo sem cumprir as exigências legais.



ADVOGADO DO DIABO

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ZERO HORA 01 de fevereiro de 2013 | N° 17330

ARTIGOS

Astor Wartchow*


Está na Wikipédia, mas você, com certeza, já ouviu a expressão. Basicamente, trata-se de realizar a defesa de fatos e pontos de vista aparentemente indefensáveis. Ou, então, apresentar argumentos para provocar o acirramento e aprofundamento do debate, de modo a testar sua profundidade, qualidade e legitimidade.

Dizem que a expressão surgiu durante os processos de canonização realizados pela Igreja Católica, quando designava um promotor da fé para contestar argumentos e provas apresentados em favor do “canonizável”. Daí a expressão “advogado do diabo”.

O rol de comentários e reportagens divulgados e patrocinados pela imprensa identifica e sugere muitos e prováveis culpados na tragédia coletiva de Santa Maria. Esse arrolamento e questionamento é retrato do justo e indignado clamor popular.

Porém, a deduzir e ampliar o conceito de responsabilização sugerido, e no andar do conjunto de inferências até aqui apontadas e realizadas, a fila dos responsáveis será interminável.

Comecemos pelos técnicos, engenheiros e bombeiros. Neste momento, quantos salões, clubes, boates, até mesmo fábricas e depósitos – e os frequentes e inúmeros eventos que reúnem 10, 20, 30 mil pessoas, exemplos de aglomeração humana em geral, resistem a um exame de probabilidades?

Vamos estender o processo de responsabilização aos prefeitos, presidentes de clubes sociais e empresas, síndicos de prédios residenciais e comerciais? Quantas saídas de emergência têm na sua empresa e no seu edifício? Que eventos de risco são realizados?

Em se tratando de legislação, ou falta de, que a tudo regula, devemos incluir no rol de responsáveis os parlamentares municipais, estaduais e federais? Prefeitos, governadores e até a Presidência da República? Afinal, é na lei que tudo começa. Poderíamos incluir os membros do Poder Judiciário que expedem liminares autorizativas?

Também seria o caso de responsabilizar funcionários de prefeituras, boates e empresas, que diariamente convivem nesses ambientes e que nunca cogitaram do risco inerente?

Devemos incluir os músicos, artistas e promotores de eventos? Onde já se viu acionar dispositivo pirotécnico em ambiente fechado? Isso vale para os circos também e festas de aniversário infantil? E o foguetório de ano-novo?

No caso específico de Santa Maria, já era famosa a banda e seu show pirotécnico, razão de atração popular e festiva. Significa dizer que muitos funcionários, frequentadores, admiradores e pais sabiam disso? E que ninguém nunca cogitou dos riscos?

Compreendo a dor de todos. Também sou pai. Não estou defendendo a impunidade. Que o doloroso fato sirva de lição e razão de mudança de comportamento individual e coletivo. E mudança de regras, legislação e punições.

Por histórica e sistemática ação e omissão, somos todos culpados. Todos. Nesse sentido e momento, não contem com meu apoio para acender “a fogueira da inquisição”!
*Advogado

RELAÇÕES ESTREMECIDAS

 


ZERO HORA 01 de fevereiro de 2013 | N° 17330





PÁGINA 10 | ROSANE DE OLIVEIRA


Antes do sétimo dia da tragédia na boate Kiss, a disputa política que sempre marcou as relações entre o PT e o PMDB em Santa Maria começou a aparecer nas entrevistas das autoridades e nas redes sociais. Nas declarações de cada pessoa que fala, aparece, visível ou nas entrelinhas, um esforço para transferir a responsabilidade para o outro. A cada entrevista, as relações entre o prefeito Cezar Schirmer (PMDB) e o governador Tarso Genro (PT) vão se deteriorando, embora um não acuse o outro diretamente. A tensão está no que é dito e no que é insinuado.

Embora tenham atuado em conjunto no primeiro dia, com bons resultados no atendimento aos feridos e às famílias dos mortos, os governos estadual e municipal começaram a se estranhar depois dos enterros. Na terça-feira, quando o governador deu uma entrevista afirmando que a Kiss não poderia estar funcionando, que qualquer pessoa que tivesse entrado lá teria percebido que ela era uma armadilha, Schirmer disse que a prefeitura não cometeu nenhum erro e atribuiu aos bombeiros a responsabilidade pela liberação da licença de funcionamento da casa. Seu secretário Giovani Mânica foi ainda mais explícito na cobrança aos bombeiros. Aliados do prefeito passaram a lembrar que Tarso é o comandante em chefe da Brigada Militar e, portanto, o chefe dos bombeiros.

Ontem, a tensão cresceu com a revelação de que uma empresa de propriedade de dois bombeiros prestou serviços à Kiss na área de prevenção de incêndios. Adversários do PT atribuíram a essa ligação a condescendência dos bombeiros, que não fecharam a boate após o vencimento do plano de prevenção, em agosto, e insistiram nas declarações de que a boate estava em situação legal.

Também ontem, uma entrevista do governador à Rádio Estadão reproduzida no site do jornal O Estado de S.Paulo, adicionou novos elementos à guerra surda. Tarso foi ainda mais incisivo do que com os jornalistas gaúchos na terça-feira. Disse que a prefeitura de Santa Maria não poderia ter dado o alvará da boate e que, no mínimo, deveria ter interditado a casa em agosto, quando venceu a licença do Corpo de Bombeiros.

– Mesmo que o documento (de renovação) esteja em análise, a casa deveria estar fechada até o documento sair – reforçou.

Em outro front, aliados do prefeito de Santa Maria passaram a questionar a isenção do delegado Marcelo Arigoni para conduzir o inquérito. O fato de ter perdido amigos na tragédia e de ter usado um megafone para endossar o pedido de “justiça” numa manifestação em frente à sede da delegacia passou a ser usado como argumento para desqualificar o delegado. Arigoni também está sendo questionado por postar no Facebook uma foto que vem circulando nas redes sociais como sendo de uma festa na Kiss, dias antes da tragédia. Na foto, jovens aparecem com garrafas de espumante e fogos de artifício como o que provocou o incêndio. Um deles está bem próximo do teto. Junto à foto, o delegado escreveu apenas “Recebi pelo msn do face. Tirem suas próprias conclusões!”.


ALIÁS

Até a conclusão do inquérito, as autoridades podem se acusar à vontade, desde que não coloquem a culpa nos mortos por estarem no lugar errado, na hora errada.



Problemas domésticos

No momento em que se discute a segurança em bares, boates e restaurantes, convém olhar a situação dos prédios públicos.

O governador Tarso Genro reconheceu que nem todos têm plano de prevenção e proteção de incêndio, mas disse que, muito antes da tragédia de Santa Maria, determinou a regularização de todos os que ofereciam perigo.

O caso mais crítico é o edifício da Rua Carlos Chagas, no Centro, onde funciona a Fepam e que até já pegou fogo.

– Determinei a transferência para outros locais, mas o processo às vezes é lento.


Falta plano até na Fase

Na Fase, com casas repletas de adolescentes, somente uma unidade de internação, a chamada POA 1, concluiu todas as etapas do plano de prevenção e teve emitido o alvará do Corpo de Bombeiros.

Todas as demais estão sem PPCI, algumas aguardando análise dos bombeiros, outras ainda estão na fase de elaboração dos planos para apresentar.

O incrível é que a lei é de 1997. Nenhuma autoridade achou importante se adequar às exigências da norma?

Na Padre Cacique e Carlos Santos, os planos foram feitos e protocolados no Corpo de Bombeiros. Os planos do CSE, Casef e POA 2 e de todas as unidades do Interior estão em fase de elaboração.

*Colaborou Adriana Irion

ESPUMA PROIBIDA E LETAL

 
ZERO HORA 01 de fevereiro de 2013 | N° 17330

SANTA MARIA, 27/01/2013

Foi a espuma de poliuretano que revestia parte da boate Kiss a principal causa da morte das 235 pessoas na madrugada do último domingo, em Santa Maria, na maior tragédia já vista no Rio Grande do Sul. Instalado no teto de um terço da casa noturna para melhorar a acústica do ambiente, o material produziu uma fumaça tomada de substâncias tóxicas depois que as faíscas de um sinalizador, usado pela banda Gurizada Fandangueira, teriam provocado um incêndio.

Altamente inflamável, a espuma é vetada pela lei municipal de prevenção e proteção contra incêndios de Santa Maria e havia sido instalada entre o isolamento e a fibra de vidro do teto – principalmente na área próxima ao palco, onde as bandas se apresentavam. Além disso, não estava protegida por um produto químico usado para retardar a combustão e evitar a rápida propagação do fogo.

– Se esse revestimento não estivesse ali, o incêndio não teria passado de um pequeno foco e, provavelmente, não teríamos vítimas fatais. As áreas onde não tinha a espuma praticamente não queimaram – comentou o delegado Marcelo Mendes Arigony, chefe das investigações da tragédia.

Uma amostra do material foi recolhido na tarde de ontem em uma nova vistoria feita na boate pelo Instituto-geral de Perícias (IGP). Onze técnicos vindos de Porto Alegre passaram quase três horas dentro do estabelecimento, auxiliados pela iluminação de um gerador.

Pintura renovada e teto rebaixado

De acordo com o delegado, a análise da espuma e os próximos depoimentos irão ajudar a apontar quem a instalou na casa, quando isso aconteceu e com qual autorização. No primeiro semestre do ano passado, os proprietários da Kiss realizaram uma pequena reforma na boate, logo após receberem uma autuação do Corpo de Bombeiros por estarem com o plano de prevenção de incêndio desatualizado.

As obras foram feitas juntamente com os trabalhos de atualização das normas técnicas. Além de renovar a pintura da boate, os proprietários também providenciaram o rebaixamento do teto, segundo o eletrotécnico Édio Nabinger, que trabalhou na execução de parte dos trabalhos contra incêndio. A polícia deve investigar se foi nesta época que a espuma de poliuretano foi colocada.

SÂMIA FRANTZ | Santa Maria