Este Blog retratará o descaso com a Defesa Civil no Brasil; a falta de políticas específicas; o sucateamento dos Corpos de Bombeiros; os salários baixos; a legislação ambiental benevolente; a negligência na fiscalização; os desvios de donativos e recursos; os saques; a corrupção; a improbidade; o crime organizado e a inoperância dos instrumentos de prevenção, controle e contenção. Resta o sofrimento das comunidades atingidas, a solidariedade consciente e o heroísmo daqueles que arriscam a vida e suportam salários miseráveis e péssimas condições de trabalho no enfrentamento das calamidades e sinistros que assolam o povo brasileiro.

sábado, 2 de março de 2013

FISCALIZAR É PRECISO

ZERO HORA 02 de março de 2013 | N° 17359

PÁGINA 10 | ROSANE DE OLIVEIRA


Uma das primeiras reações dos governantes e dos legisladores após a tragédia da boate Kiss foi defender mudanças na legislação. Ontem, no Painel RBS que discutiu medidas para o futuro, ficou claro que o mais importante não é fazer leis novas, mas cumprir as existentes. Se cada um dos responsáveis pelo licenciamento, pela fiscalização e pela operação da Kiss tivesse feito a sua parte, nenhum jovem teria morrido.

Antes de chegar às ações e omissões dos agentes públicos é preciso relembrar que os proprietários da boate usaram espuma inflamável no revestimento do teto, o que é expressamente proibido por lei, e permitiram o excesso de lotação. E que os integrantes da banda dispararam o sinalizador assassino. Feitas as ressalvas, é preciso lembrar que bombeiros cometeram erros graves: concederam o alvará sem um plano completo de prevenção de incêndio a uma boate que tinha apenas uma porta de saída e atrasaram a vistoria depois do pedido de renovação. A prefeitura de Santa Maria foi omissa na fiscalização: concedeu o alvará de localização da boate no início da operação e nunca mais se preocupou em saber se alguma coisa estava irregular.

No painel, ficou evidente o jogo de empurra entre o prefeito Cezar Schirmer e o secretário da Segurança, Airton Michels. Cauteloso, Schirmer insistiu que não queria falar do passado, mas que para o futuro era importante a lei deixar claras as competências de cada um. E insistiu na tese que vem sustentando desde o início: a prefeitura só concede o alvará depois de receber o atestado dos bombeiros de que o estabelecimento está em condições de funcionar.

Michels foi mais direto e, mais de uma vez, disse que a responsabilidade pelo licenciamento e pela fiscalização é do município. Reconheceu que a legislação é confusa, que os bombeiros fornecem um laudo preliminar, mas quem licencia é a prefeitura. Contou que no dia da tragédia sobrevoou o local de helicóptero e, vendo de cima, concluiu que naquele local jamais poderia ter sido autorizado o funcionamento de uma boate.

COMO EVITAR NOVAS TRAGÉDIAS

ZERO HORA 02 de março de 2013 | N° 17359

SANTA MARIA, 27/01/2013


O caminho para evitar novas tragédias como a que deixou 239 mortos na boate Kiss, em Santa Maria, tem obstáculos, mas pode ser percorrido. Autoridades, especialistas e pais de vítimas reunidos ontem pela manhã no primeiro Painel RBS de 2013 no Estado debateram quais lições o desastre deixou e o que ainda precisa ser aprendido para as cenas dramáticas testemunhadas pelo mundo no dia 27 de janeiro jamais se repetirem.

No programa dividido em três blocos, sob o tema Depois da tragédia de Santa Maria – O Que Mudou e o Que Deve Mudar?, os participantes fizeram um balanço do duro aprendizado resultante das circunstâncias do incêndio. Confira, a seguir, um resumo do debate que contou com a participação dos jornalistas Carolina Bahia, Nilson Vargas, Rosane Marchetti e Tulio Milman.


AS LIÇÕES

Necessidade de se unificar a legislação

Ao despertarem para a importância de reforçar as medidas de prevenção a incêndios em todo o país, autoridades depararam com uma dificuldade essencial: o emaranhado de leis municipais e estaduais que complica a fiscalização e sobrepõe competências.

Em diferentes manifestações no painel, os participantes reforçaram a importância de se unificar a legislação, uma discussão já iniciada em comissão criada na Câmara Federal e na Assembleia Legislativa.

Subprocurador-geral de Justiça para Assuntos Institucionais do Ministério Público, Marcelo Dornelles disse que o MP já encaminhou ao governo do Estado uma análise com sugestões para homogeneizar as normas e clarear competências:

– Há muitas lacunas na legislação. Os bombeiros podem ou não interditar? Se fica nessa insegurança. Em Porto Alegre, pode, em Santa Maria, não, porque as leis são diferentes. Precisamos definir com mais clareza.

Mobilização que garante agilidade

Entre tantas falhas que conduziram à tragédia em Santa Maria, a agilidade no atendimento aos sobreviventes virou um exemplo positivo de como a mobilização permanente pode fazer a diferença.

Superando o estereótipo de que o Sistema Único de Saúde é sinônimo de lentidão, a Força Nacional do SUS conseguiu prestar assistência rápida e efetiva aos pacientes do incêndio da boate Kiss.

Criada em 2011, por ocasião das enchentes que afetaram a região serrana do Rio de Janeiro, a estrutura capitaneada pelo Ministério da Saúde pôde garantir o atendimento imediato e de qualidade porque não diminuiu seu ritmo de trabalho nos períodos de calmaria. Foram realizadas simulações até no Carnaval.

– Estamos nos preparando não só para situações como essa, que não se repitam, mas para os grandes eventos no Brasil durante a Copa das Confederações e a Copa do Mundo – destacou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que transferiu o gabinete para o Estado nos primeiros dias após a tragédia.

Importância de monitorar vítimas

Não basta garantir o cuidado imediato aos sobreviventes. Para que reconstruam suas vidas, precisarão de cuidados a longo prazo.

No âmbito da saúde, isso será garantido por meio de um monitoramento ao longo de cinco anos, para verificar suas condições pulmonares.

Durante o painel, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou que o primeiro chamamento aos sobreviventes da Kiss será no dia 9 de março, no Hospital Universitário de Santa Maria. Todos receberão cartas convidando para comparecer ao ambulatório, em um trabalho articulado pela Secretaria Estadual da Saúde.

Reforço ampliado para a fiscalização

O poder público se mobiliza para reforçar a fiscalização preventiva. Antes do início das aulas, por exemplo, o Ministério Público chamou secretários municipais e estaduais de Educação e Obras para discutir o plano de prevenção a incêndio em escolas públicas, para monitorar a situação e garantir adequações.

A mudança de atitude para garantir a aplicação das leis foi destacada pelo argentino José Iglesias, representante da organização Que No Se Repita, de familiares de vítimas do incêndio na boate República Cromañón, de Buenos Aires:

– Existem coisas elementares que não requerem mudanças de leis. Em Buenos Aires tivemos poucas mudanças.

Uma das alterações foi justamente o aumento da frequência da fiscalização nas casas noturnas da capital argentina.



ONDE FALTA AVANÇAR


Imprudência e a cultura da negação

Não são apenas as autoridades que têm lições a aprender após a morte de 239 jovens e adultos na boate de Santa Maria. Uma das avaliações do painel é que cidadãos e empreendedores também precisam superar um traço nocivo da cultura brasileira que minimiza os riscos de comportamentos imprudentes.

– Falou-se aqui que temos uma cultura do risco. Na verdade, temos uma cultura da negação de risco. Surpreende que não haja mais acidentes – declarou o antropólogo e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Ruben Oliven.

Essa cultura se reflete no descompromisso das pessoas com regras de segurança em áreas tão diversas como a prevenção a incêndios ou a acidentes de trânsito. Para o especialista, o caminho para a mudança de mentalidade envolve a criação de regras claras e a responsabilização efetiva de quem descumpra as normas.

Aplicar e fiscalizar as leis já existentes

Desde 27 de janeiro, muito se falou sobre a complexidade e a falta de clareza da legislação anti-incêndio. Mas o desastre deixou outra constatação: o país tem dificuldade de aplicar as leis que já existem. Apesar de não serem as ideais, seriam capazes de evitar catástrofes se fossem respeitadas. No caso de Santa Maria, por exemplo, normas municipais impedem o uso de material inflamável em ambientes como o da Kiss.

– Há um emaranhado de legislação, isso é indiscutível. Mas se o emaranhado fosse cumprido, não haveria a tragédia de Santa Maria – declarou o consultor legislativo de Segurança Pública e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, Fernando Wanderley Rocha.

O especialista afirmou que a legislação nacional sobre o tema está sendo revisada em Brasília, mas que há limites para a influência da União nessa área. Por isso, além de melhorar as leis, Estados e municípios ainda precisam aprender a aplicar melhor o que já existe.

Sociedade civil ainda frágil

A fragilidade da sociedade civil no Brasil, pouco afeita à organização para cobrar direitos e exigir a ação preventiva das autoridades nas mais variadas áreas, é outro desafio à espera de solução. Segundo o professor da UFRGS Ruben Oliven, a mobilização social é “fraca” no país.

Depois de tragédias semelhantes em casas noturnas, foram criadas associações de parentes de vítimas em Buenos Aires, onde queimou a boate República Cromañón, e em Santa Maria. O presidente da entidade gaúcha recém-criada, Adherbal Alves Ferreira, afirmou que jamais poderia imaginar que o poder público não estivesse fiscalizando adequadamente as casas noturnas.

– A partir de agora, estaremos irmanados. Temos de tomar providências – declarou Ferreira.

Articular diferentes órgãos autuadores

Iniciativas começam a ser tomadas, mas o Rio Grande do Sul e o Brasil ainda não contam com um sistema eficiente para compartilhar responsabilidades de fiscalização em áreas complexas como a prevenção de incêndio.

Cidades como Porto Alegre dispõem, por iniciativa própria, de uma legislação que atribui de maneira mais clara as responsabilidades entre Estado e prefeitura.

O desafio é fazer com que os diferentes órgãos de fiscalização, como secretarias municipais, Corpo de Bombeiros e outros se complementem, e não se sobreponham ou deixem lacunas.

– Nas repartições de competência que são estabelecidas constitucionalmente, há competências expressas da União e do município. O que não for deles, é dos Estados. Não há em lugar nenhum atribuições de competências específicas para legislar sobre incêndios – afirma Fernando Wanderley Rocha, consultor legislativo de Segurança Pública e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, que participou do painel desde Brasília.

Jogo de empurra envolvendo prefeitura e governo do Estado

Uma das constatações do encontro é que a negação de responsabilidade ainda é uma prática das autoridades gaúchas. Passado mais de um mês da tragédia, a prefeitura de Santa Maria e a Secretaria Estadual da Segurança Pública, responsável pelo Corpo de Bombeiros, mantiveram a disputa sobre qual nível de governo teve participação primordial nas falhas de fiscalização que permitiram o desastre. O mais recente capítulo do jogo de empurra ocorreu durante o primeiro bloco do Painel RBS.

– Nós examinamos a documentação e não há nada que indique que tenha havido alguma falha do ponto de vista da prefeitura – afirmou o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer, já em sua manifestação inicial.

O secretário estadual da Segurança Pública, Airton Michels, foi convidado a falar em seguida sobre medidas de prevenção. Acabou analisando de forma crítica o papel do município:

– A prefeitura, quando autoriza que uma casa funcione, deve se certificar se o bombeiro fez o papel que a ele competia, se os instrumentos de incêndio foram realmente verificados. As prefeituras devem examinar com seus corpos de engenheiros se existem portas que permitem evacuação.

Schirmer lançou a responsabilidade de volta às mãos do secretário.


sexta-feira, 1 de março de 2013

PAINEL RBS: JOGO DE EMPURRA E EMOÇÃO

ZERO HORA ONLINE 01/03/2013 | 12h43

Jogo de empurra e emoção marcam edição do Painel RBS sobre a tragédia em Santa Maria. Primeira edição gaúcha do evento foi transmitida direto dos estúdios da RBS TV de Porto Alegre


Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS


A primeira edição gaúcha do Painel RBS em 2013, realizada nos estúdios da RBS em Porto Alegre nesta manhã, promoveu o debate entre diversos segmentos da sociedade a respeito da tragédia em Santa Maria, na qual morreram 239 pessoas no incêndio da boate Kiss.

Mediado pelo apresentador Tulio Milman, o painel “Depois da tragédia de Santa Maria – O que mudou e o que deve mudar”, contou com a participação dos jornalistas Nilson Vargas, editor-chefe de Zero Hora, Carolina Bahia, colunista do Grupo RBS e Rosane Marchetti, editora da RBS TV.

Saiba mais:
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Schirmer e Michels defendem mudança na legislação para evitar tragédias
Especialistas discordam sobre os responsáveis por tragédia
Representantes relatam mudanças após tragédia em Santa Maria

Com um rodízio de entrevistados, o dinâmico painel colocou em debate temas como a reponsabilidade sobre o acontecido, as mudanças necessárias para que uma fatalidade igual não aconteça e o comportamento da sociedade frente ao poder público.

Poder público

Um mês depois da tragédia, o prefeito de Santa Maria Cezar Schirmer e o secretário de Segurança Pública Airton Michels debateram a respeito da responsabilidade sobre o ocorrido.

— Aquele lugar visto de cima, evidentemente, possuía muito potencial para a tragédia — afirmou Michels.

Além de mudanças na legislação, defendidas por ambos, Schirmer ponderou, ainda, sobre uma necessária revisão na estrutura do Corpo de Bombeiros, definida por ele como "pesada e cara".



Schirmer e Michels, no centro
Foto: Fernado Gomes

— Se os bombeiros fossem responsabilidade do município, já teríamos assumido total culpa pelo que aconteceu — ressaltou Schirmer.

Embora a discussão não tenha descambado para uma troca de acusações gratuita, ficou claro que Estado e prefeitura ainda não chegaram a um denominador comum a respeito da tragédia.

No segundo bloco, dedicado a especialistas em leis e Planos de Prevenção e Combate a Incêndio (PPCI), o debate ficou centrado nas figuras de Luiz Capoani, presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea- RS), e Fernando Rocha, consultor legislativo da Câmara dos Deputados.

Ainda que o subprocurador-geral de Justiça Marcelo Dornelles tenha iniciado a conversa salientando a necessidade de se estabelecer delimitações claras sobre responsabilidades, o debate principal pairou sobre a qualificação de bombeiros e engenheiros envolvidos com o assunto.



Capoani e Dornelles debateram com Rocha, que estava em Brasília
Foto: Lauro Alves



As lacunas nas legislações municipais, apontadas por Dornelles, para Rocha estariam sanadas. O consultor, que falou direto de Brasília, levantou os seguintes pontos: que a responsabilidade final sobre a tragédia seria da prefeitura, que as legislações municipais e estadual e se complementam e que os engenheiros não estariam preparados para trabalhar com combate e prevenção a incêndio.

Capoani, visivelmente contrariado, lembrou que a capacidade do engenheiro analisar questões relacionadas a PPCIs é muito maior que a dos Bombeiros gaúchos, que nem corpo técnico possuem.

Familiares e a cultura brasileira

No bloco de encerramento, marcado pela emoção, a participação de representantes de associações de familiares das vítimas e um antropólogo agregou questões como a necessidade de mudança de comportamento e fiscalização por parte da sociedade.



Oliven e Iglesia
Foto: Lauro Alves

José Iglesias, representante da organização Que No Se Repita, de familiares de vítimas do incêndio na boate República Cromañón, de Buenos Aires, abriu o bloco falando a respeito das poucas mudanças ocorridas na Argentina após a tragédia, mas salientou que a sociedade vizinha ainda se mantém alerta para o assunto.

Segundo Iglesias, a principal mudança de legislação foi apenas a alteração do prazo de uma licença para funcionamento, que antes era renovada anualmente e tornou-se trimestral.

Para Adherbal Alves Ferreira, presidente da recém-criada associação de familiares de vítimas e sobreviventes da tragédia de Santa Maria, todo evento que contasse com muitas pessoas deveria ser fiscalizado de forma imediata, a fim de que sejam evitadas novas tragédias.

Ferreira lamentou ainda a responsabilização dos pais das vítimas pelo ocorrido, salientando que os filhos só iam à boate por acreditarem que o "poder público cuida disso, confiamos no poder público".

O antropólogo e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Ruben Oliven, que encerrou esta edição, afirmou que o brasileiro alimenta uma cultura de negação de riscos.

— Se Deus não fosse brasileiro, tragédias como esta seriam corriqueiras — concluiu.

> Confira quem participou como entrevistado:

ALEXANDRE PADILHA, ministro da Saúde

AIRTON MICHELS, secretário da Segurança Pública do Estado

MARCELO DORNELLES, subprocurador-geral de Justiça para Assuntos Institucionais do Ministério Público

CEZAR SCHIRMER, prefeito de Santa Maria

ADHERBAL ALVES FERREIRA, presidente da recém-criada associação de familiares de vítimas e sobreviventes da tragédia de Santa Maria

LUIZ CAPOANI, presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea- RS)

RUBEN OLIVEN, antropólogo e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

FERNANDO CARLOS WANDERLEY ROCHA, consultor legislativo de Segurança Pública e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados

JOSÉ IGLESIAS, representante da organização Que No Se Repita, de familiares de vítimas do incêndio na boate República Cromañón, de Buenos Aires

VENDA DE ALVARÁS EM PORTO ALEGRE


JORNAL DO COMERCIO 01/03/2013

PGM recebe denúncia de venda de alvarás de casas noturnas

Pedro Henrique Tavares



A operação da prefeitura para vistoriar as casas noturnas de Porto Alegre deu espaço ao oportunismo. Na quarta-feira, a Procuradoria-Geral do Município (PGM) recebeu denúncia envolvendo uma suposta venda de alvarás que autorizam o funcionamento das boates. Segundo o procurador João Batista Link Figueira, o órgão recebeu a informação por meio do proprietário de um estabelecimento. Foram entregues arquivos em áudio e vídeo.

“Quatro horas depois de o estabelecimento ter sido fechado, essa pessoa se colocou à disposição dizendo que tem ‘bruxos’ dentro da prefeitura e do próprio Corpo de Bombeiros”, relata Figueira. Ainda segundo ele, uma notícia-crime foi encaminhada ao Ministério Público, contendo o material audiovisual recebido. O comandante do Corpo de Bombeiros foi alertado sobre o caso.

Os documentos, como o Habite-se e o alvará dos bombeiros, foram oferecidos pela quantia de R$ 2.000,00, informou a procuradora Valeska Buselato Prestes, coordenadora da Comissão de Inspeção de Projetos. A arquiteta - como se apresentava - disse ao autor da denúncia que havia chegado nele através da lista dos locais interditados pela Secretaria Municipal da Produção, Indústria e Comércio. “Primeiramente, ela fez um contato por telefone, depois marcou um encontro. Desconfiado, o proprietário da casa noturna decidiu gravar o ocorrido”, conta Valeska.

Uma interpelação judicial será encaminha à mulher que aparece nas gravações. O procurador-geral aponta que o objetivo é pedir o nome dos supostos servidores públicos a quem ela se refere como conhecidos. “Quem colhe os depoimentos é o Ministério Público, onde ela deve responder criminalmente. O que podemos fazer é essa interpelação judicial”, explica.

Em um esforço para supervisionar a qualidade dos serviços públicos, Figueira anunciou o envio de um projeto de lei à Câmara. A proposta elaborada pelo prefeito José Fortunati consiste na criação da Procuradoria de Controle da Probidade Administrativa. O procurador-geral conta que o objetivo do órgão será supervisionar a conduta de servidores públicos, agentes políticos e cargos em comissão. “Ao fazer a declaração de bens, o agente público será submetido a este controle.”

Com as seis novas interdições realizadas nesta quinta-feira, chegou a 23 o número de casas noturnas fechadas em Porto Alegre devido a aspectos relacionados à proteção contra incêndios. Os novos locais que entraram para a lista foram o Cabaret Indiscretus, o Labaredas Whiskeria, o Bar Drink Tropicana, o Chalaça Bar, Pink Elephant Club e o Bongô Bar.

NAS MÃOS DA JUSTIÇA

ZERO HORA 01 de março de 2013 | N° 17358

SANTA MARIA, 27/01/2013

Caberá ao juiz da 1ª Vara Criminal de Santa Maria, Ulysses Louzada, a decisão de manter na cadeia os quatro suspeitos de envolvimento no incêndio da boate Kiss que estão na Penitenciária Estadual de Santa Maria. Se aceitar o pedido feito pela Polícia Civil ontem, a prisão temporária atual, cujo prazo expira no domingo, será revogada. No lugar dela, será expedida a prisão preventiva dos suspeitos.

A solicitação se refere aos sócios da boate Kiss, Mauro Hoffmann, o Maurinho, e Elissandro Spohr, o Kiko, e aos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Após analisar a solicitação protocolada mais cedo, por volta das 17h, os promotores criminais Joel Dutra e Maurício Trevisan se manifestaram favoráveis ao pedido da polícia.

– A liberdade deles pode colocar em risco a ordem pública. Além disso, a possibilidade de fuga dos suspeitos deve ser considerada já que ao serem presos três deles estavam em outras cidades – argumentou o promotor Dutra.


CONTRAPONTOS - O que dizem os advogados dos suspeitos:

“Se for decretada a preventiva, não haverá prazo definido para o término, por outro lado, espero que não seja feito desdobramento do inquérito e sim a conclusão.” Jader Marques, advogado de Elissandro Spohr, o Kiko, sócio da boate

“A defesa repudia os argumentos que a polícia usou para embasar o pedido de prisão, como o de preservação da integridade física dos suspeitos e credibilidade das instituições.” Mário Cipriani, advogado de Mauro Hoffmann, sócio da Kiss, ingressou na Justiça com pedido para que a preventiva não seja decretada

“Vou encaminhar ao juiz uma manifestação de que a preventiva não vem acompanhada dos requisitos exigidos por lei.” Gilberto Carlos Weber, advogado de Luciano Augusto Bonilha Leão, produtor da banda Gurizada Fandangueira

“Houve equívoco na informação enviada à Justiça, já que o Marcelo foi autorizado pelo delegado Gabriel Zanella e, portanto, não há embasamento para risco de fuga.” Omar Obregon, advogado de Marcelo de Jesus dos Santos, vocalista da banda Gurizada Fandangueira


Advogado questiona isenção de delegado

O advogado Omar Obregon, que defende o vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, entrará com pedido de suspeição contra o delegado Marcelo Arigony, responsável pelas investigações da tragédia da boate Kiss, em Santa Maria.




O defensor acredita que o delegado tem envolvimento pessoal com a tragédia ocorrida da boate Kiss por ter perdido uma familiar no incêndio e que isso pode influenciar o trabalho.




O pedido pode levar ao afastamento de Arigony do caso. A solicitação será feita pessoalmente, no Palácio da Polícia, em Porto Alegre, na próxima segunda-feira.




– Não coloco em dúvida o trabalho dele, mas ele teve uma perda em função da tragédia e está emocionalmente envolvido. Isso é um risco – avalia Obregon.




Além disso, o advogado entende que o delegado vem utilizando sites de relacionamento para expor suas opiniões pessoais, quando deveria ser imparcial.




A reportagem tentou contatar o delegado por telefone, mas não obteve retorno.



ORIGEM DOS ALVARÁS NA MIRA

ZERO HORA 01 de março de 2013 | N° 17358

SANTA MARIA, 27/01/2013 


Projetos e consultorias técnicas prestadas por engenheiros e arquitetos aos donos da Kiss também são alvo da investigação da Polícia Civil que busca entender como foram emitidos os alvarás que permitiram o funcionamento da boate. Instalada no centro de Santa Maria, a Kiss se incendiou na madrugada do dia 27 de janeiro, deixando 239 pessoas mortas – a maioria jovens.

– Foram estes documentos que inicialmente permitiram que a boate tivesse os alvarás de funcionamento. Além da questão técnica (mudanças nos projetos por conta e risco dos proprietários), nós vamos avaliar a tramitação deles nos órgãos públicos – explicou Marcelo Arigony, um dos delegados responsáveis pelo inquérito policial.

Foram quatro engenheiros e uma arquiteta que prestaram serviço para Santo Entretenimento Ltda., cujo o nome fantasia é Kiss. Eles produziram laudos que fizeram parte de processos para a retirada de alvarás (sanitário, ambiental e de localização) e outras licenças emitidas pela prefeitura.

A boate obteve o alvará de localização em abril de 2010, depois de funcionar meio ano de maneira irregular. Durante o período em que não estava com a papelada em dia, a danceteria foi multada seis vezes pela prefeitura, no valor de R$ 15 mil. O trabalhado dos profissionais de engenharia e arquitetura está registrado nas Anotações de Responsabilidade Técnica (ART), disponíveis no site do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio Grande do Sul (Crea-RS). Os números das ART são citados em um dossiê que foi feito pelo CREA-RS dias depois da tragédia.

O projeto acústico da boate é do engenheiro civil Miguel Angelo Teixeira, 64 anos, mestre em acústica arquitetônica. Ele, e os outros quatro profissionais, foram procurados por Zero Hora.

– Fui chamado para fazer o projeto acústico porque o som estava incomodando os vizinhos. Neste tipo de trabalho, não usamos espuma como isolamento. Mas outros materiais, como gesso. Além de fazer o projeto, eu acompanhei as obras que foram feitas dentro das especificações técnicas dadas por mim. Ou seja: não tinha espuma – conclui o engenheiro.

Técnicos não teriam sugerido a espuma

No inquérito policial há vários depoimentos que mostram que a colocação da espuma foi por conta é risco de um dos sócios, Elissandro Spohr, o Kiko, que está preso.

– Os trabalhos desses técnicos é fundamental para que se possa demonstrar o seguinte: os projetos foram aceitos pelos poder público ao conceder os alvarás. Em tese, estavam corretos. As mudanças foram feitas por conta e risco dos donos – diz o promotor de Justiça Maurício Trevisan.

A análise dos trabalhos dos cinco profissionais não só irá ajudar a esclarecer a parte criminal da tragédia, como também vai ajudar nas ações cíveis (pedidos de indenizações pelos familiares das vítimas), avalia Joel Oliveira Dutra, um dos outros promotores do caso.

CARLOS WAGNER | SANTA MARIA






EFICIÊNCIA DO PODER PÚBLICO

ZERO HORA 01 de março de 2013 | N° 17358 ARTIGOS


Marcelo Bertoluci*


A tragédia de Santa Maria é emblemática por inúmeros motivos. O mais expressivo de todos é, sem dúvida, o fato de ter sido a maior da história recente de nosso Estado. Centenas de jovens perderam suas vidas de forma abrupta enquanto faziam aquilo que é inerente à juventude: se divertir.

Ao passo que familiares e amigos convivem com a tarefa impossível de amenizar a dor da perda, o poder público parece buscar mecanismos para evitar que fatos semelhantes voltem a ocorrer. Casas noturnas são fechadas e providências são cobradas, numa atitude de aparente precaução. É difícil não pensar na expressão popular “casa arrombada, tranca de ferro”.

O tempo é, também, de investigação e apuração dos níveis de responsabilidade dos envolvidos nos fatos que antecederam e ocasionaram a tragédia e isso envolve os responsáveis pelo material inadequado que revestia o teto da boate, a precária instalação de equipamentos de segurança, a inexistência do ideal sistema de saídas de emergência, a negligência na verificação dos materiais pirotécnicos que foram utilizados no interior da casa noturna, a conduta dos agentes públicos, enfim, toda a cadeia de acontecimentos.

Aliás, é fundamental que se tenha um olhar crítico e independente sobre a atuação dos envolvidos. É preciso que a sociedade repense a forma como age e reage diante de fatos como esse. Não podemos ser lenientes com a ineficiência dos responsáveis, tampouco indulgentes com os que tiveram culpa no episódio.

Precisamos compreender que a responsabilidade pela fiscalização do Estado começa por cada um de nós. Se há o despreparo do poder público para cumprir o seu papel é por que a sociedade também não se organizou suficientemente para cobrar eficiência na gestão pública. Essa responsabilidade, que recai sobre todos nós, não pode ser diminuída. Não podemos aceitar que a tragédia de Santa Maria se some a tantos outros fatos que caíram no esquecimento da sociedade, e permitir que somente a memória das famílias dilaceradas mantenha acesa a fagulha da indignação.

Para tanto, é absolutamente necessário cobrarmos um novo paradigma de atuação do poder público: a eficiência. Muito além da avaliação sobre a (i)legalidade dos atos do poder público é fundamental, enquanto sociedade civil, exigirmos eficiência.

É imperioso que tomemos medidas concretas para evitar novas tragédias, e essa é uma missão coletiva, do cidadão, das entidades, da sociedade civil organizada e dos agentes públicos.

De nossa parte, a OAB/RS está cumprindo ampla agenda relativa aos acontecimentos e prosseguirá trabalhando com o intuito de cumprir com o seu papel estatutário de atuar em defesa da cidadania.

*PRESIDENTE DA OAB/RS