Este Blog retratará o descaso com a Defesa Civil no Brasil; a falta de políticas específicas; o sucateamento dos Corpos de Bombeiros; os salários baixos; a legislação ambiental benevolente; a negligência na fiscalização; os desvios de donativos e recursos; os saques; a corrupção; a improbidade; o crime organizado e a inoperância dos instrumentos de prevenção, controle e contenção. Resta o sofrimento das comunidades atingidas, a solidariedade consciente e o heroísmo daqueles que arriscam a vida e suportam salários miseráveis e péssimas condições de trabalho no enfrentamento das calamidades e sinistros que assolam o povo brasileiro.

terça-feira, 9 de julho de 2013

SOCORRO NA CAPITAL GAÚCHA



ZERO HORA 09 de julho de 2013 | N° 17486

SOCORRO NA CAPITAL

Das 13 unidades da corporação previstas para Porto Alegre, apenas oito estão habilitadas para operar em toda a cidade


JOSÉ LUÍS COSTA

Labaredas começavam a engolir parte do segundo piso do Mercado Público de Porto Alegre, sábado à noite, enquanto bombeiros tentavam, em vão, abrir um hidrante próximo à prefeitura.

Uma peça interna estava quebrada, possivelmente por um ato de vandalismo, e não funcionou. Em meio ao tumulto, um bombeiro lembrou que a antiga estação Mauá, quase ao lado da prefeitura, desativada havia dois anos, tinha um hidrante que poderia ser usado. Um portão de ferro foi arrombado, uma mangueira foi conectada ao equipamento e logo a água jorrou para ajudar a debelar as chamas que consumiriam 10% do prédio.

O episódio é um exemplo de como o 1º Comando Regional de Bombeiros (1º CRB), enfrenta incêndios em Porto Alegre.

– Se ainda existisse a estação Mauá e duas escadas mecânicas estivessem a nossa disposição, quem sabe, teríamos diminuído a área atingida pelo fogo – lamenta o major Rodrigo Dutra, subcomandante do 1º CRB, e coordenador do núcleo de oficiais bombeiros da Associação dos Oficiais da Brigada Militar (Asofbm).

Das 13 estações de combate a incêndio previstas para a Capital, 10 estão em atividade, mas apenas oito são habilitadas para operar em toda a cidade (a estação Mauá foi fechada, duas existem apenas no papel, uma só atende ao aeroporto, e outra, dependendo de horários, pode, no máximo, servir de apoio). O quadro de pessoal sofre com um déficit de 31,1%, considerando o efetivo previsto pela Brigada Militar. Se levar em conta estimativas internacionais, a crise de pessoal chega a 50%. Um dos problemas mais graves é a falta de uma equipe especializada em lidar com acidentes com produtos químicos ou radiológicos.

Em termos de equipamentos, as oito estações operacionais contam com 10 caminhões de combate a incêndio – a maioria com mais de 15 anos de uso, passando boa parte do tempo em oficinas. O necessário seria, pelo menos, o dobro. O 1º CRB dispõe de uma escada mecânica (Magirus), quando o mínimo necessário seriam quatro.

Risco de ações no Guaíba

Outro equipamento que ajudaria a garantir a segurança na Capital seria uma lancha-bomba, com capacidade de sucção de água do Guaíba.

– Existem navios que atracam no porto, e há ainda o Catamarã. Se acontece um incêndio com essas embarcações, só temos um bote salva-vidas – afirma o major.

O 1º CRB chegou a ter duas lanchas, fabricadas nas décadas de 20 e 30, em uso até 1996, ano do incêndio no Edifício Cacique, até então, o último grande incêndio na Capital:

– Na época, a estrutura até era melhor. A situação atual é preocupante. Este ano, tivemos ocorrências graves no Estado, com repercussão mundial. Temos apenas um trunfo que é a qualificação humana. O pessoal é bem treinado e faz milagres.

O presidente da Associação de Bombeiros do Rio Grande do Sul (Abergs), Ubirajara Ramos, acrescenta:

– Temos dedicação profissional e uma estrutura amadora.


Separação da corporação é analisada pelo Piratini

Debatida há décadas, a desvinculação do Corpo de Bombeiros da Brigada Militar (BM) está de novo em discussão. E, desta vez, com mais ênfase. Há cerca de dois meses, o Conselho Superior da BM – formado pelos coronéis da ativa, a elite da tropa – indicou que a separação seria o melhor caminho a ser seguido pela corporação. No dia 2 de julho, Dia Nacional do Bombeiro, um projeto gestado pelo comando-geral da Brigada foi encaminhado para análise da Casa Civil, no Palácio Piratini.

O projeto prevê autonomia administrativa e financeira para os bombeiros, embora ainda sob a tutela da BM.

– É um avanço, início da separação – analisa a deputada estadual, Miriam Marroni (PT), estudiosa do assunto.

Apenas no Rio Grande do Sul, no Paraná, em São Paulo e na Bahia os bombeiros são braços das polícias militares. O porta-voz do comando-geral da BM, tenente-coronel Eviltom Pereira Diaz, evitou comentar detalhes do projeto.

Sobre a estrutura dos bombeiros na Capital, Eviltom afirmou que as deficiências são históricas. Lembrou que estão sendo adquiridos três carros e uma auto plataforma – caminhão com um braço conectado a um cesto, no qual um bombeiro pode se aproximar de áreas em chamas a uma altura de até 80 metros.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

FRAGILIDADES REVELADAS



ZERO HORA 08 de julho de 2013 | N° 17485

COMBATE ÀS CHAMAS

Falta de pessoal e equipamentos evidenciaram carências na infraestrutura da corporação na Capital

MARCELO GONZATTO

O trabalho do Corpo de Bombeiros para conter o incêndio no Mercado Público da Capital salvou o prédio da ruína, mas também revelou carências preocupantes na infraestrutura da corporação na Capital.

Embora a chegada das primeiras viaturas tenha demorado apenas quatro minutos, a falta de pessoal e equipamentos próprios exigiu o apoio de unidades localizadas a mais de 35 quilômetros e que precisaram de uma hora para enviar equipamentos importantes como mais escadas magirus. A dificuldade de combate ao fogo pelo alto foi uma das principais fragilidades demonstradas pelo incidente de sábado.

Quando os bombeiros chegaram diante da fachada em chamas do prédio histórico, às 20h38min, conforme a marcação oficial do comando na Capital, parecia que sobraria pouco do Mercado Público. As labaredas se elevavam acima da cobertura metálica e avançavam para os lados. Ao perceber a dimensão do incêndio, os bombeiros da Capital acionaram a rede de apoio que congrega unidades de municípios como Canoas, Novo Hamburgo e São Leopoldo. O pedido de auxílio também foi necessário para fazer frente às carências de estrutura na Capital.

Durante a maior parte do tempo em que o incêndio estava descontrolado, os bombeiros contaram com sua única autoescada mecânica (conhecida popularmente pela marca Magirus) em operação na cidade para lançar água do alto sobre o segundo piso ardente. Para enfrentar o fogo nas três fachadas, o equipamento tinha de ser deslocado lentamente.

– Esse é um processo que leva uns 10 minutos, o que é muito numa situação dessas. O ideal era agir ao mesmo tempo em todas as frentes – avalia o subcomandante dos bombeiros na Capital, major Rodrigo Dutra, também coordenador do núcleo de oficiais bombeiros da Associação dos Oficiais da Brigada Militar (Asofbm).

Enquanto isso, outros dois veículos equipados com esse tipo de escada, capaz de atingir 30 metros de altura, se deslocavam desde São Leopoldo e Novo Hamburgo. Segundo Dutra, em razão da demora, foram utilizadas mais para fazer rescaldo do que para combater o fogo. A estratégia dos bombeiros foi enviar homens para o interior do prédio – o que aumenta a eficácia dos jatos de água por não enfrentar obstáculos como paredes e coberturas – e estabelecer uma linha imaginária a partir da qual as chamas não deveriam passar, e que acabou sendo o limite final do incêndio.

Porém, foi necessário um novo esforço para compensar outra carência da corporação: a falta de pessoal. Segundo o major Dutra, como há cerca de cinco vezes menos homens do que o ideal (veja quadro abaixo), cerca de 20% dos 70 militares mobilizados estavam de folga e agiram de forma voluntária. Outros vieram de municípios vizinhos, o que também atrasou a formação da força máxima para enfrentar as chamas.

Segundo o especialista em gerenciamento de riscos Gustavo Cunha Mello, do Rio de Janeiro, carências de pessoal e equipamento são uma ameaça comum em caso de incêndio em capitais como Porto Alegre. A escassez de escadas magirus é um dos problemas mais graves.

– Uma tragédia nunca ocorre por um fator só, é sempre uma combinação. A estrutura dos bombeiros é uma delas, assim como legislação e fiscalização – avalia Mello.

O comandante dos bombeiros na Capital, tenente-coronel Adriano Krukoski, sustenta que, apesar das dificuldades, o trabalho da corporação teve sucesso ao limitar em 10% da edificação os estragos.



PÁGINA 10 | CARLOS ROLLSING

Blindagem

É grande a insatisfação de bombeiros com a atuação de assessores do Palácio Piratini que teriam ido ao Mercado Público ainda no momento de combate ao incêndio para supostamente blindar informações e moldar respostas sobre a eventual falta de estrutura e de equipamentos da corporação.

Vários oficiais se disseram frustrados por não poder evitar mais o ocorrido porque faltou equipamento – diz José Carlos Riccardi Guimarães, presidente da Associação dos Oficiais da Brigada Militar.

NEGLIGÊNCIA CENTENÁRIA


ZERO HORA 08 de julho de 2013 | N° 17485

143 anos e nenhum Plano de Prevenção Contra Incêndio
Município pretende regularizar situação nos próximos dias junto ao Corpo de Bombeiros, na Capital

ADRIANA IRION

O desencontro de informações da prefeitura de Porto Alegre sobre documentos oficiais de prevenção a incêndio do Mercado Público é um dos personagens no cenário que abalou o coração da Capital, na noite de sábado.

O prédio de 144 anos e por onde passam 50 mil pessoas por dia nunca teve um Plano de Prevenção Contra Incêndio (PPCI), segundo o comando dos Bombeiros. A prefeitura, porém, acreditava que o problema era apenas de documentação vencida. Só hoje, com o funcionamento normal das secretarias, é que o Executivo municipal deve esclarecer a situação.

No sábado, enquanto o prédio ainda ardia, o secretário municipal da Produção, Indústria e Comércio, Humberto Goulart, disse a Zero Hora que o PPCI do Mercado estava vencido havia seis anos, desde 2007. A mesma informação foi repetida pelo prefeito José Fortunati (PDT) em entrevista, na manhã de domingo.

Horas depois, o comandante dos Bombeiros da Capital, tenente-coronel Adriano Krukoski, afirmou que o prédio nunca teve PPCI. Krukoski explicou que o Mercado foi advertido em novembro de 2007 por não ter o PPCI e que, até o momento, o plano não foi apresentado.

Krukoski não soube esclarecer se a ausência do plano foi constatada em fiscalização de rotina ou se foi por conta de denúncia. Quanto ao fato de, nesse período, os Bombeiros não terem voltado a cobrar o documento do Mercado, o oficial explicou:

– O prédio do Mercado, por ser baixo, com muitas saídas, não causava tanta preocupação. Nosso foco são prédios altos, postos de gasolina, casas noturnas. Temos uma estimativa de que de 120 a 150 mil prédios deveriam ter PPCI na Capital. E hoje temos apenas em torno de 28 mil.

Questionado novamente sobre o assunto ontem, o secretário Goulart admitiu a falta de informação:

– Eu dou as linhas gerais (do que deve ser feito), e cada setor toca o seu trabalho. Tinham que tratar da renovação, era o que eu sabia. Agora, se lá em 2007 não existia (o PPCI), não sei. Eu só sei o que é de janeiro (quando assumiu a secretaria) para cá.

Outra informação que fora dada por Goulart foi corrigida pela prefeitura: a de que a formulação do PPCI ainda dependia da finalização de uma licitação para contratar a empresa que faria o projeto. Em entrevistas ontem, o prefeito deu pistas de que o plano já estaria em formulação.

– Nós estávamos tomando todas as providências, tanto é que o laudo pericial, o laudo técnico (que seria um dos documentos que integram o PPCI) já estava aprovado. Todos os extintores haviam sido substituídos, então, todo o sistema estava pronto. Faltava o encaminhamento para os bombeiros, que é uma outra fase – afirmou Fortunati.

Com base na declaração do prefeito, ZH pediu informações para as secretarias da Produção, Indústria e Comércio (Smic) e de Comunicação da prefeitura, que não tinham os detalhes. No final da tarde, foi informado que o assunto estava sendo tratado diretamente pelo vice-prefeito, Sebastião Melo (PMDB).

Prefeitura busca laudo

A prefeitura pretende identificar hoje qual documento assegurava o funcionamento do Mercado Público em relação às normas de segurança contra o fogo. O vice-prefeito, Sebastião Melo, confirmou que o Mercado não estava regularizado junto aos bombeiros.

– As informações estão desencontradas. Só saberemos amanhã (hoje), com a abertura da Smurb (Secretaria de Urbanismo). Vamos ver se havia algum laudo carimbado pelos bombeiros ou só um laudo da prefeitura. Isso é comum em outras situações em Porto Alegre – explicou Melo.

O vice-prefeito disse que também será verificada a situação do PPCI que já estaria pronto e teria sido entregue para análise da Smurb. Quanto à possibilidade de reabrir o Mercado sem um plano de incêndio aprovado, Melo disse que o retorno ao funcionamento não será uma decisão unilateral, já que um grupo de trabalho composto pelos bombeiros e pelo governo do Estado participa das discussões.



O QUE É O PPCI? 

Apreciado pelos Bombeiros, plano atestaria segurança. O Plano de Prevenção Contra Incêndio (PPCI) é obrigatório para prédios com instalações comerciais, industriais, de diversões públicas e edifícios residenciais. Realizado por uma empresa privada, o plano precisa ser aprovado pelo Corpo de Bombeiros. Se o local estiver em conformidade com normas de segurança, é emitido um alvará. Caso contrário, correções são pedidas, e uma nova vistoria é feita em 30 dias.

O QUE DEVE TER - Informações básicas sobre medidas de segurança e prevenção, tais como

SAÍDAS DE EMERGÊNCIA
 - Análise da necessidade da existência de portas de emergência de acordo com a área e o número de pessoas, quantas, com que dimensões e onde devem estar localizadas.

SINALIZAÇÃO - Localização das luzes de emergência para iluminar bem o ambiente e indicar as rotas de saída, que tipo de sinalização é mais adequada e um sistema de alimentação de energia independente da rede principal.
EXTINTORES - Quantidade e tipo de extintores, capacidade e onde serão colocados.

CHUVEIROS AUTOMÁTICOS - Análise da necessidade de instalação de sprinklers (chuveiros automáticos contra incêndio) e hidrantes.

MATERIAIS ADEQUADOS - Verificação dos tipos de materiais utilizados para, se for o caso, retirar o que for inadequados

TRÊS VEZES RENASCIDO DAS CINZAS


ZERO HORA 08 de julho de 2013 | N° 17485

NA HISTÓRIA

Incêndios marcam a trajetória de mercados públicos como os de Porto Alegre e Florianópolis


Estruturas imponentes no cenário de algumas cidades, os mercados públicos carregam consigo uma triste relação com o fogo. Ao longo dos 143 anos do Mercado Público de Porto Alegre, três grandes incêndios já haviam destruído as bancas. Sábado aconteceu pela quarta vez.

Após cada uma das ocorrências, mudanças foram realizadas para melhorar as condições de segurança, como a substituição da madeira usada nas estruturas por metal. No interior do Estado, o mercado de Pelotas, ponto turístico da cidade, foi destruído quase totalmente pelo fogo em 1969.

Pelo país, os incêndios se repetem. Neste ano, há pelo menos dois registros: em Sena Madureira (AC), com 20 boxes destruídos, e em Bom Jesus da Lapa (BA), com sete bancas atingidas.

A ocorrência recente de maior proporção foi em Florianópolis. Em 19 de agosto de 2005, 68 dos 129 boxes foram queimados. A ala norte foi fechada e reinaugurada em seis meses. Antes disso, em 1988, um vazamento de gás havia provocado um incêndio.

Depois do fogo, muitas mudanças foram realizadas no prédio localizado no centro da capital catarinense para evitar que ocorrências desse tipo se repetissem. A estrutura para suporte do telhado, que antes era de madeira, foi executada em aço galvanizado. Também foram instalados sprinklers (espécie de chuveiro automático), hidrantes com alarme, sinalização de abandono do local e para-raios.

Em 3 de janeiro deste ano, um incêndio consumiu o box número 44, na ala norte, que vendia calçados, mas o fogo foi controlado e não se espalhou pelo prédio.

Referência dos centros comerciais populares do país, o Mercado Modelo de Salvador contabiliza cinco grandes incêndios em um século de existência. As chamas destruíram as instalações em 1917, 1922, 1943, 1969 – considerado o incêndio mais grave, pois exigiu a demolição dos escombros e a construção de um novo prédio – e 1984, que resultou em uma ampla reforma antes da reinauguração.



A ILUSÃO DAS LÍNGUAS DE FOGO




ZERO HORA 08 de julho de 2013 | N° 17485

INCÊNDIO NO MERCADO


Uma língua de fogo no segundo andar, na altura do teto, entre o Bar Chopp Atlântico e o restaurante Mamma Julia. Foi o que Daltro Souza viu, no térreo, do centro do Mercado Público, aí pelas 20h30min, logo depois do término do jogo do Grêmio contra o Atlético Paranaense. O fogo começava quase no meio da ala norte, da Avenida Júlio de Castilhos, mas Daltro não se assustou. É funcionário da banca 26, quase do lado oposto. As portas haviam sido fechadas às 18h30min, e ele ainda estava ali, com outro empregado, para trocar uma pia:

– O jogo terminou e eu tinha saído da banca para avisar o pessoal da limpeza que eles poderiam deixar que eu iria limpar o piso aqui do meu lado.

Foi quando viu o fogo. Voltou à banca, avisou o funcionário para que alertasse alguém da segurança e retornou ao corredor. Em menos de um minuto, o fogo tinha crescido e andava para o oeste, para o lado da esquina com a Rua Siqueira Campos, em direção ao restaurante Telúrico. Depois, viu que as chamas seguiam também para leste, sempre pelo alto, pegando o Memorial, que guardava documentos e objetos históricos.

Foi assim, alastrando-se para os dois lados, que o incêndio promoveu uma devastação em “U”, indo até as salas do Sebrae, na ala da Praça Parobé, de um lado, até o restaurante Marco Zero, no lado oposto, da prefeitura.

Daltro tem 30 anos de mercado, onde conseguiu o primeiro emprego. O que ele sentiu, desde o começo, reflete a sensação média de outras testemunhas do incêndio. Intuiu, já do lado de fora, antes das 23h, que, apesar das carências enfrentadas pelos bombeiros, o Mercado seria salvo.

E por que a sensação inicial, de outros que também estavam lá, e dos que viam as imagens pela TVCom, foi de que o maior patrimônio afetivo de Porto Alegre iria virar cinzas? A hipnose das línguas de fogo expelidas pelo telhado provocou a falsa impressão de profundidade do fogaréu. Mas as chamas ficaram, todo o tempo, longe do centro do Mercado, e percorreram o trajeto em “U” a pelo menos cinco metros de altura do chão do térreo.

– A impressão no começo era mesmo de uma fornalha – admitia ontem à tarde Nilson Pilati, da Cooperativa dos Assentados e da banca da Reforma Agrária.

O Mercado Público está atordoado, mas em pé

Pilati chegou ao Mercado às 21h e foi outro que, antes das 23h, estava convencido de que o fogo ficaria no segundo andar:

– O primeiro susto foi: não vai sobrar nada.

Celso Rossatto, dono da banca 10, teve a mesma percepção. Às 21h, quando se aproximou do local, imaginou que tudo seria destruído. Aos poucos, viu que o primeiro piso estava salvo. Foi dormir, aí pela 1h da madrugada, convencido de que sua banca escapara, mas lamentando as perdas de colegas dos restaurantes do segundo andar.

Valdir Sauer, da banca San Remo, mora a algumas quadras dali, saiu de casa correndo e chegou ao Mercado logo depois de iniciado o incêndio. Temia que o fogo chegasse à subestação de energia elétrica, e chegou. Ontem, o vice-prefeito Sebastião Melo transitava pelo mercado com uma preocupação: as bancas dependem da subestação, que será avaliada, para que voltem a funcionar. O vice esteve no local no sábado à noite e foi dormir sem a exata dimensão dos danos. Chegou a pensar em coisa pior. No retorno, ontem à tarde, olhava ao redor, lamentava a destruição de parte do segundo piso, mas se consolava:

– É um alívio.

O Mercado está atordoado – para muito além da questão comercial, como diz Melo –, mas ficou em pé. Salvaram-se a Banca 40, o Gambrinus, o Naval, as especiarias da Banca do Holandês, o Armazém do Confeiteiro – todo o térreo e metade das lojas do segundo piso. O que o fogo consumiu pode ser refeito. O Mercado que cheirava a carvão ontem à tarde estará, daqui a pouco, cheirando de novo a erva doce, pé de porco, tainha, rabada, queijo, história e gente.

MOISÉS MENDES

MERCADO PÚBLICO: FOGO TERIA COMEÇADO ENTRE RESTAURANTES

ZERO HORA 08 de julho de 2013 | N° 17485

INCÊNDIO NO MERCADO PÚBLICO DE PORTO ALEGRE

A INVESTIGAÇÃO

Perícia sobre incêndio no Mercado deve ser concluída em prazo de 30 dias


O incêndio que quase aniquilou mais de 140 anos de história viva de Porto Alegre começou no segundo andar do vetusto prédio, entre três restaurantes e o Memorial do Mercado Público. É um ponto central, situado de frente para a Avenida Julio de Castilhos. Estas são as deduções preliminares da equipe enviada pelo Instituto Geral de Perícias (IGP) para periciar o local e também das informações repassadas por testemunhas ao delegado Hilton Müller, da 17ª DP, responsável pela investigação. A perícia deve ser concluída em 30 dias.

Segundo funcionários do prédio e donos de bancas relataram a Zero Hora e também a policiais civis, as chamas irromperam em algum ponto entre três restaurantes (um de comida vegetariana, outro de culinária italiana e uma choperia). Logo, engolfaram também o Memorial do Mercado Público. O delegado diz que ainda é muito cedo para esclarecer as causas. As hipóteses vão desde escapamento de gás até curto-circuito na fiação do prédio. O gás no prédio é encanado, informa Ivair Maynart, que na prefeitura responde como coordenador do Mercado. Não está excluída a possibilidade de existirem botijões clandestinos. As análises iniciais descartam incêndio proposital, mas nada é conclusivo.

– Todas as definições legais de conclusão e de responsabilidade de quem causou o evento vamos deixar para um segundo momento – explica o delegado.

Imagens serão analisadas

A polícia espera contar com imagens que devem ser obtidas junto a câmeras de vídeo, mas ainda não foram disponibilizadas. Uma situação causou alívio a peritos e policiais: o primeiro andar (o térreo) ficou intacto e muitos lojistas não devem colher prejuízos. O delegado Müller ficou surpreso ao entrar no local:

– O que vimos sábado à noite, pela imprensa, era que o dano era muito grande. Nos surpreendeu muito positivamente que o dano não tinha tanta dimensão. Nossa preocupação agora é mostrar aos gaúchos que a situação não é tão dramática quanto imaginávamos.

O cálculo dos peritos do IGP é de que cerca de 10% do prédio tenha sido consumido pelas chamas. Bem menos grave que a estimativa do Corpo de Bombeiros, feita ainda na noite de sábado, que era de 30% de destruição. Pelo Twitter da Casa Civil, o governo estadual chegou a calcular, no domingo, que 25% do local tinha sido atingido, mas o dado oficial será o do IGP.

HUMBERTO TREZZI E LETÍCIA COSTA



Animais resgatados estão em granja

Um dos temores de quem presenciou as chamas consumindo parte do Mercado Público foi a morte de animais que são comercializados no prédio do Centro Histórico. Mesmo que o fogo não chegasse ao andar térreo, a grande quantidade de fumaça poderia ser prejudicial aos mais de cem bichos da Loja do Galo – a maioria de pequeno porte.

A remoção foi rápida, já que o estabelecimento tem porta voltada para o lado externo da construção, na Avenida Borges de Medeiros. O proprietário, Gilnei Giovanaz, ao ficar sabendo do incêndio pela Rádio Gaúcha, dirigiu-se ao local e abriu a cortina de ferro. Os bombeiros fizeram a remoção, e a titular da Secretaria Especial dos Direitos Animais (Seda), Regina Becker, ofereceu abrigo, transporte e chamou três veterinários. Giovanaz preferiu levar os animais – entre eles galinhas, periquitos e coelhos – para a garagem do irmão, na zona norte de Porto Alegre. Um caminhão do Batalhão Ambiental da Brigada Militar fez o traslado.

– Hoje (ontem), devolvi a maior parte ao fornecedor, que buscou os animais e os levou para uma granja, mais apropriado – disse Giovanaz.

Regina ficou preocupada com os peixes, sem energia elétrica para oxigenar os aquários do Stanivet Pro Aquários. Se os peixes começassem a morrer, poderiam contaminar a água. O gerente da loja, Paulo Roberto Niada, conseguiu compressores à bateria, e espécies foram tiradas do Mercado.


Memorial foi totalmente consumido pelas chamas

Dois espaços dedicados à preservação da memória cultural e da história do Mercado Público de Porto Alegre também foram consumidos pelo incêndio: o Memorial do Mercado e a Livraria Ilhota. Ambos funcionavam na sala 38, no segundo piso.

– Todo o espaço foi queimado. Teremos uma reunião nesta segunda-feira para avaliar quais documentos podem ser recuperados a partir de outras fontes – disse o secretário municipal da Cultura, Roque Jacoby.

Vinculado à Coordenação da Memória da Secretaria Municipal da Cultura, o Memorial tinha um acervo documental e iconográfico sobre o espaço e prestava atendimento a pesquisadores e público em geral. Concebido a partir do projeto de restauração do prédio, foi aberto à visitação em 1999 e realizava exposições de longa e curta duração, além de ações educativas voltadas ao público escolar. O local tinha um banco de imagens digitalizadas para consulta, além de fotos, mapas, plantas e documentos sobre a execução da obra de restauro.

Livraria comercializava obras de artistas locais

Segundo dados do próprio Memorial, nos primeiros seis meses do ano passado, mais de 10 mil pessoas visitaram o local.

No mesmo espaço, funcionava a Livraria Ilhota, que comercializava obras de artistas locais selecionados pelas diversas coordenações da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, além daquelas financiadas pelo Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre (Fumproarte) e impressas pela Editora da Cidade.

PRÓXIMOS PASSOS - Entenda o que a polícia e o IGP irão apurar sobre o incêndio no mercado

INÍCIO DO FOGO - As chamas começaram no segundo andar do prédio do Mercado Público. A perícia tentará esclarecer qual foi o ponto exato em que o incêndio teve início. Dados preliminares indicam que o fogo começou entre três restaurantes e o Memorial do Mercado.

CAUSAS DAS CHAMAS - As hipóteses são as mais variadas, desde escapamento de gás até curto-circuito na fiação. A perícia ainda não sabe qual foi o motivo do incêndio e não descarta nenhuma possibilidade. Os peritos devem finalizar laudo em prazo de até 30 dias.

CÂMERAS DE VÍDEO - A polícia aposta nas imagens das câmeras de vídeo internas do mercado para auxiliar na investigação. Os registros serão solicitados nos próximos dias pelo delegado responsável.

10% do Mercado Público foi consumido pelo incêndio de sábado, segundo análise dos técnicos do Instituto Geral de Perícias (IGP).

INCÊNDIO NO MERCADO PÚBLICO DE PORTO ALEGRE





ZERO HORA 08 de julho de 2013 | N° 17485

Um golpe no coração

CLEIDI PEREIRA E HUMBERTO TREZZI

Porto Alegre adormeceu no sábado com a terrível imagem de um dos seus mais notórios cartões-postais em chamas. Era como se o Inferno de Dante tivesse se aberto sobre o vetusto prédio do Mercado Público de Porto Alegre e engolido seus 143 anos de história. Labaredas se erguiam até quatro metros acima do seu edifício em estilo neoclássico, com torres e muretas arredondadas que, a todos parecia, desmoronariam em questão de horas. Mas não. Feito fênix, o prédio que abriga 111 lojas e restaurantes (oito estabelecimentos foram atingidos no segundo andar) resistiu ao seu quarto incêndio. E, para espanto de quem jamais esquecerá aquelas horas de horror, há possibilidade de que ele volte a funcionar nos próximos dias.

Quem estava nos altos do Mercado Público diz que o fogo começou no segundo andar, entre três restaurantes, por volta de 20h30min – ninguém costuma olhar no relógio, em meio ao pavor. Para a imensa maioria, foi a primeira experiência do gênero. Afinal, o fogo tinha assolado o prédio em 1912, 1976 e 1979, deixando de dar o ar da sua desgraça há mais de três décadas.

Mas então aconteceu. O prédio, talvez o mais frequentado do Rio Grande do Sul (50 mil visitantes/dia), pegou fogo. Ninguém sabe ainda a origem, que pode ser elétrica ou até por escapamento de gás. Extintores havia, mas as tentativas de uso não conseguiram debelar as chamas. Em segundos, a parte situada na esquina das avenidas Borges de Medeiros e Júlio de Castilhos virou tocha, e as chamas se espalharam. As pessoas fugiram assim que sequências de explosões começaram a ocorrer, possivelmente causadas por botijões de gás.

As labaredas eram visíveis a quarteirões. Toda a região do Centro foi isolada para a chegada dos bombeiros, que de início tinham pouco equipamento (página 12) (apenas um caminhão com escada capaz de atingir o topo do edifício), o que provocou críticas como a do presidente da Associação dos Oficiais da Brigada Militar, José Carlos Ricarddi Guimarães. Ele diz que existem cerca de 3 mil bombeiros no Estado e o efetivo deveria ser de 11 mil, caso fossem respeitados padrões da Organização das Nações Unidas (ONU). Uma investigação da Polícia Civil mostrará se houve negligência antes e depois do incêndio. Já se sabe que o prédio, administrado pela prefeitura, não tem Plano de Prevenção e Proteção Contra Incêndio (PPCI) (página 10).

A quase destruição levou autoridades ao local. O prefeito José Fortunati foi a pé de casa até lá. O coronel Silanus Mello, subcomandante da BM, já chegou vestido com capote de bombeiro anti-chamas, que costuma guardar em casa por ter sido oficial dos bombeiros por 15 anos. O vice-governador Beto Grill também correu para o local ao receber a notícia que ninguém gosta de ouvir quando exercia uma função muito eventual: a de governador. O titular do governo, Tarso Genro, está em Portugal. Comandante do Corpo dos Bombeiros, o tenente-coronel Adriano Krukoski se preparava para ir a um aniversário quando foi avisado por colegas da principal guarnição de combate a fogo na Capital, a dos Açorianos, que iam para o local. Eles afirmam ter chegado em quatro minutos. O comandante da BM, coronel Fábio Duarte Fernandes, acredita que o pior foi evitado.

– Ninguém acabou ferido com gravidade, e acredito que o prédio não está comprometido, apesar de ter ficado bastante danificado – avalia.

Perícias preliminares indicam que o coronel Fábio está certo. Após duas horas, o fogo foi debelado. Na manhã de domingo, sob olhares incrédulos e com cheiro da fumaça ainda impregnando o ar, comerciantes com permissão para entrar no prédio custaram a acreditar na bênção: a destruição era bem menor que a imaginada. Até os animais à venda foram resgatados. Foi um festival de suspiros e lágrimas, mas, acima de tudo, de promessas de reconstrução (página 16).

É o caso da família de Nadja Demezur Melo, 33 anos, do Restaurante Gambrinus, com quase meio século de tradição no Mercado Público. Dos grandes incidentes que marcaram a história da estrutura, que é patrimônio dos gaúchos, os Melo só não sentiram os impactos da enchente de 1941. O pai e o avô de Nadja se viram obrigados a recomeçar duas vezes, nos incêndios de 1976 e 1979. Desta vez, foram poupados dos estragos.

– Mas fica a dor pela história que o Mercado tem e, como a gente é como uma família aqui, acaba sofrendo pelas perdas dos outros – pondera Nadja, que cresceu brincando com o irmão entre as bancas do local.

Outros, entretanto, não tiveram a mesma sorte. Denize Viana, 60 anos, e Jorge Rosa, 54 anos, que há uma década realizam mensalmente a feira do vinil no Mercado Público (venda de LPs), calculavam prejuízo de até R$ 30 mil por expositor – um total de R$ 240 mil. Os discos raros ficavam armazenados no segundo pavimento da estrutura, o mais danificado.

– É o nosso ganha-pão. Esperamos que coloquem um outro lugar à nossa disposição – afirma Rosa.

Denize não lamenta o prejuízo:

– Perdi uma sobrinha no incêndio da boate Kiss, então, vou tirar mais essa de letra.

A comoção não é só dos comerciantes. Frequentadores assíduos do Mercado Público, como a aposentada Janete Conceição de Sá Oliveira, também deixaram suas residências para, com frio e chuva, conferir de perto a situação do prédio.

– O Mercado é tudo pra mim. Compro aqui minha comida e até meus panos de prato para bordar – conta, antes de interromper sua fala para consolar um grupo de conhecidos comerciantes.

O prefeito Fortunati, que tem marcado um encontro com a presidente Dilma Roussef para tentar um financiamento para recuperação do Mercado (página 14), acredita que da quase tragédia pode vir uma lição:

– O Mercado vai se recuperar. E sairá dessa melhor do que está.