Este Blog retratará o descaso com a Defesa Civil no Brasil; a falta de políticas específicas; o sucateamento dos Corpos de Bombeiros; os salários baixos; a legislação ambiental benevolente; a negligência na fiscalização; os desvios de donativos e recursos; os saques; a corrupção; a improbidade; o crime organizado e a inoperância dos instrumentos de prevenção, controle e contenção. Resta o sofrimento das comunidades atingidas, a solidariedade consciente e o heroísmo daqueles que arriscam a vida e suportam salários miseráveis e péssimas condições de trabalho no enfrentamento das calamidades e sinistros que assolam o povo brasileiro.

sábado, 23 de março de 2013

CRIMINALISTAS LANÇAM DÚVIDAS SOBRE INDICIAMENTO POR HOMICÍDIO DOLOSO


Criminalistas levantam dúvidas sobre decisão de indiciar envolvidos por homicídio doloso. Mas especialista apoia responsabilização de autoridades pelo caso

SÉRGIO ROXO
O GLOBO
Atualizado: 22/03/13 - 22h40


Mulher chora durante coletiva com policiais civis Raphael Happke/Futura Press/Estadão Conteúdo


SÃO PAULO — Especialistas em direito penal apontam excesso da Polícia do Rio Grande do Sul nos indiciamentos de supostos responsáveis pela tragédia da boate Kiss, em Santa Maria. A principal crítica se refere aos enquadramentos por homicídio doloso (quando há intenção de matar).

— É muito complicado apontar dolo. Me parece uma falha e um pouco excessivo — afirma Janaína Conceição Paschoal, professora de Direito penal da USP.

Sergei Cobra Arbex, professor de Direito penal da Faap (SP), diz que os músicos da banda Gurizada Fandangueira e os sócios da boate quase se tornaram vítimas da tragédia:

— Como que eles assumiram o risco do matar se quase morreram juntos.

Arbex, porém, elogia o rumo da investigação policial por ter apontado responsabilidade de agentes públicos que deveriam ter fiscalizado a casa:

— Fiquei satisfeito com o rumo das investigações. No princípio, só falavam na responsabilidade dos donos da boate, mas a apuração mais rigorosa acabou tomando o caminho correto.

Mas, mesmo no caso dos agentes públicos, o especialista não acredita que seja cabível o dolo:

— Só numa situação extrema de falha muito grave na vistoria os fiscais poderiam ser indiciados por homicídio doloso. Se a boate não tivesse a menor condição de funcionar.

Mauro César Bullara Arjona, professor de Direito penal da PUC-SP, concorda com o colega: — Os agentes públicos são os únicos que poderiam ser indiciados por dolo.

Mas, na avaliação de Arjona, isso só pode acontecer se ficar comprovado que houve pagamento de propina aos agentes públicos. O professor da PUC-SP classifica como “erro” o indiciamentos dos donos da boate e dos integrantes da banda por homicídio com intenção de matar:

— Eles não eram indiferentes a que todos os frequentadores da boate morressem. Para ser dolo, mesmo que eventual, precisa haver essa indiferença.

CASO KISS: 10 CONCLUSÕES DA POLÍCIA


Listamos as 10 conclusões da polícia sobre o incêndio da boate Kiss.


O GLOBO 22/03/13


Início do incêndio

O fogo teve início por volta das 3 horas da madrugada do dia 27/01, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), deflagrado por uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) empunhado por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

Falha de extintor

O extintor de incêndio, localizado ao lado do palco da Boate, não funcionou no momento do início do fogo.

Alvarás irregulares

A boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás.

Boate superlotada

Havia superlotação: no mínimo 864 pessoas estavam no interior da boate.

Espuma inflamável

A espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular, feita de poliuretano.

Obstáculos

As grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas.

Saídas

A boate tinha apenas uma porta de entrada e saída.

Sinalização

Não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência.

Fluxo de saída

As portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário.

Exaustão de ar

Não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.









CASO KISS: PREFEITO ACUSA GOVERNO DE MANIPULAR INVESTIGAÇÃO


Prefeito acusa governo do estado de manipular investigação da Kiss. Advogado reclama de ‘espetacularização’ da apuração policial


FLÁVIO ILHA
O GLOBO
Atualizado:22/03/13 - 22h39


PORTO ALEGRE — O prefeito de Santa Maria reagiu com indignação à sua citação no inquérito que apurou o incêndio na boate Kiss. Num rápido pronunciamento, Cezar Schirmer acusou o governo estadual, a polícia e o delegado regional de Santa Maria de manipularem as investigações e disse que ficou surpreso com seu indiciamento.

— Prevaleceu a vontade do estado de se exonerar de suas responsabilidades. Desde o começo da investigação percebemos indícios de manipulação política. No segundo dia, já houve manifestações públicas e ostensivas de altas autoridades estaduais, e a chefia de polícia veio várias vezes a Santa Maria orientar o inquérito. Além disso, o delegado regional (Marcelo Arigony) fez publicamente juízo de valor político sobre nossa administração, o que não lhe cabe — contestou o prefeito.

Diante de um inquérito considerado por ele como um “absurdo jurídico”, o prefeito disse que confia agora apenas no Ministério Público e na Justiça:

— Esse inquérito é um procedimento de natureza política, que como tal será respondido. Estou clamando por justiça, mas a justiça cega, que não olha para partidos e outras condições. Que não seja aquilo que está nos autos de uma investigação que deveria ser séria, isenta, responsável e precisa, como quer a população, os familiares das vítimas e, acima de tudo, o prefeito de Santa Maria.

No começo da investigação, Schirmer elogiou o trabalho da polícia. Uma semana antes da conclusão do inquérito, entretanto, foi chamado a depor e acabou sendo ouvido formalmente pelos delegados do caso. Um laudo de um engenheiro da prefeitura, apontando 29 irregularidades na Kiss, foi obtido da prefeitura apenas mediante mandado de busca e apreensão.

Os advogados de defesa dos principais acusados também reagiram ao resultado da investigação. Bruno Seligman e Mario Cipriani, que defendem o empresário Mauro Hoffmann, divulgaram nota em que acusam os delegados e o Ministério Público de anteciparem o seu indiciamento muito antes de provas fundamentais terem sido coletadas. “O ato de prender para investigar, de culpar antes de julgar, muito próprios de estados autoritários, serviu para dar uma resposta — equivocada — à sociedade, sangrando o princípio da presunção de inocência”, diz a nota.

O advogado de Elissandro Spohr, Jader Marques, criticou a “espetacularização” da apresentação do inquérito.

— O próprio delegado foi taxativo ao dizer que a opção (por crime doloso) se deve ao tamanho da tragédia, e não a uma opção técnica ou jurídica — disse Marques.

sexta-feira, 22 de março de 2013

SUGESTÃO DE RESPONSABILIZAR PREFEITO POR HOMICÍDIO É A GRANDE SURPRESA

(Fernanda Ramos/Especial)
ZERO HORA ONLINE - Opinião - 22/03/2013 | 15h59

Sua Segurança - Humberto Trezzi

"Teoria do domínio do fato" deve ter sido determinante para responsabilizar Cezar Schirmer

Até uma semana atrás, os cinco delegados encarregados de elucidar a maior tragédia gaúcha tinham uma dúvida: o prefeito de Santa Maria teria responsabilização sugerida no inquérito? Dificilmente, era o consenso entre eles. A atuação do mandatário da cidade palco do incêndio foi indireta – nomeou secretários, que chefiavam fiscais, que olharam papéis, produzidos por bombeiros. E só os bombeiros teriam entrado na boate para fiscalizar as condições de segurança.

Ou seja: assim como Lula no caso Mensalão, Cezar Schirmer – um quadro histórico nacional e fundador do PMDB – teria sido o último a saber da arapuca que era a Kiss. E então veio a divulgação do relatório final do inquérito e o petardo nas pretensões políticas do prefeito: os policiais acreditam existirem fatos capazes de justificar que Schirmer responda a um processo criminal por homicídio culposo. Teria sido negligente na fiscalização da danceteria. Só não será indiciado e processado em Santa Maria porque tem foro privilegiado. Um abalo na carreira de um político de sucesso, mesmo que o processo sequer tenha sido aberto.

O que fez os delegados mudarem de opinião?

Provavelmente, a teoria do domínio do fato. Muito citada no Direito, ela diz que a autoria de um crime não pode se circunscrever a quem pratica pessoal e diretamente o delito. Ela estabelece diferença entre autoria e participação. Schirmer, claramente, não é autor do incêndio, nem estava perto da boate quando ela virou uma fornalha assassina. O problema é que o prefeito é, em última instância, responsável por nomear aqueles que devem fiscalizar locais públicos, entre eles as casas noturnas. É como o engenheiro que responde, criminalmente, por uma obra malfeita pelos trabalhadores da construção e gerenciada pelo capataz.

Os capatazes de Schirmer, aliás (seus secretários), também tiveram responsabilização sugerida. Inclusive por homicídio, como é o caso de Miguel Passini, o atual secretário de Mobilidade Urbana. Ele era chefe dos fiscais que deveriam ter fechado a boate e não apenas aplicado multas. E que não viram que os alvarás dos bombeiros estavam vencidos.

O delegado Sandro Meinerz, relator do inquérito, justifica a responsabilização sugerida do prefeito e também a recomendação para que o Legislativo abra investigação por improbidade (má gestão) contra Schirmer:

– A sociedade foi ferida de morte. O prefeito administra as secretarias que se omitiram na fiscalização. Há nexo causal entre as mortes e a administração municipal.


E não se pode acusar os policiais de desequilíbrio político nos indiciamentos. Cumpriram a promessa de não perdoar ninguém. Os bombeiros, os primeiros a liberar o funcionamento da boate, foram duramente atingidos pelo inquérito. Se Schirmer foi apontado como responsável por homicídio, o comandante regional dos bombeiros de Santa Maria, tenente-coronel Moisés Fuchs, também deverá responder pelo mesmo crime, na Justiça Militar. Junto com 10 subordinados. Tudo isso será agora analisado pelas diversas esferas judiciais.

Divulgação do inquérito

Os delegados encarregados das 13 mil páginas de interrogatórios e perícias entregaram, a partir das 14h30min desta sexta-feira, o relatório do inquérito que aponta quem eles consideram responsáveis pelo incêndio que matou 241 pessoas na boate Kiss, em Santa Maria, na madrugada do dia 27 de janeiro.



Cezar Schirmer critica Polícia Civil durante pronunciamento à imprensa. Prefeito de Santa Maria afirma que administração municipal colaborou com as investigações desde o início

Em pronunciamento na tarde desta sexta-feira, no prédio da Sociedade União dos Caixeiros Viajantes (SUCV), o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer, fez duras críticas ao resultado do inquérito da Polícia Civil sobre o incêndio da boate Kiss.

- Isso é uma aberração jurídica.

O prefeito ainda afirmou que o governo do Estado não foi responsabilizado adequadamente e que os indiciamentos acabaram sendo somente para a prefeitura.

Schirmer ainda afirmou que o delegado Marcelo Arigony já teria manifestado opiniões contrárias sobre administração municipal.

O chefe do Executivo disse ver indicios de questões políticas e que o fato de ser apontado no inquérito por homicídio foi a maior surpresa de sua vida politica.

O prefeito não falou sobre os dois secretários também indiciados. Limitou-se a dizer que a prefeitura vai analisar a situação em caso de algum deles colocar o cargo à disposição.

KISS: JUSTIÇA AGUARDA PROCESSO


(Divulgação Polícia Civil/Divulgação)
ZERO HORA 22 de março de 2013 | N° 17379

SANTA MARIA, 27/01/2013


Passados 54 dias do incêndio na boate Kiss, que vitimou 241 pessoas, Santa Maria volta a ser o centro das atenções no Estado com a divulgação do resultado da investigação capitaneada pela Polícia Civil.

Pouco antes das 14h, está prevista a saída dos delegados Marcelo Arigony e Sandro Meinerz e colegas da sede da Delegacia Regional, no Centro. A missão será levar o inquérito de mais de 10 mil páginas à 1ª Vara Criminal, no bairro Dores. Depois, com uma cópia dos documentos, a comitiva parte para o bairro Camobi.

Às 14h30min, no anfiteatro Flávio Miguel Schneider, no Centro de Ciências Rurais (CCR) do campus da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), está marcada a coletiva de imprensa para o relato dos indiciados e as conclusões da investigação.

A cerimônia terá a cúpula da segurança pública do Estado: o secretário Airton Michels (titular da pasta da Segurança Pública), Ranolfo Vieira Jr. (chefe de Polícia) e José Cláudio Garcia (diretor-geral do Instituto-Geral de Perícias).

Ao fim da coletiva, devem ser distribuídas à imprensa cópias com os tópicos principais da apresentação e os nomes dos indiciados.

Na tarde de ontem, uma equipe da Divisão de Comunicação Social da Polícia Civil da Capital realizou testes de som e verificou a estrutura do auditório – em atividade desde 1965. Além de seis grandes caixas de som, o anfiteatro tem 10 aparelhos de ar-condicionado e duas portas (para regrar a entrada e a saída). Dos 117 alunos e ex-alunos da UFSM que morreram no incêndio, 65 eram estudantes de cursos do CCR.

Na manhã de hoje, o Grupo de Operações Especiais (GOE), órgão ligado à Polícia Civil, deve fazer uma detalhada vistoria no anfiteatro para saber das condições de segurança.

Para o vice-presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria, Léo Becker, o clima de expectativa não se limita apenas aos envolvidos:

– Esperamos para amanhã (hoje) o indiciamento de quatro a cinco pessoas do Corpo de Bombeiros e de cerca de 15 a 20 pessoas da prefeitura, entre fiscais, secretários, ex-secretários e do prefeito, por improbidade administrativa. Acreditamos em um inquérito contundente, afinal, os setores competentes falharam. É uma resposta que a cidade e o mundo exigem.

MARCELO MARTINS


SANTA MARIA 27/01/2013: A TRAGÉDIA SEGUNDO A POLÍCIA

ZERO HORA 22 de março de 2013 | N° 17379

SANTA MARIA, 27/01/2013

A tragédia segundo a Polícia

É hoje. Após milhares de litros de café, média de 15 horas por dia de trabalho, noites maldormidas e dias intermináveis, mais de 800 testemunhas ouvidas, 10 mil páginas de interrogatórios e perícias acumuladas, os policiais anunciarão às 14h30min quem eles consideram responsáveis pelo incêndio que matou 241 pessoas na boate Kiss. Pelo menos sete pessoas devem ser indiciadas por homicídio doloso eventual – assumiram o risco de matar, ao contribuírem para a falta de segurança na danceteria. Essas poderão enfrentar júri popular. O relatório da Polícia Civil também deverá indicar omissões – mesmo que as falhas não tenham sido criminosas. Entre os que serão citados, promotores de Justiça e o próprio prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer.

Num PowerPoint especialmente preparado para o anúncio da conclusão do inquérito, os policiais pretendem demonstrar de forma didática como uma cadeia de atos irresponsáveis abreviou o futuro de centenas de pessoas, a maioria jovens. O destaque ficará por conta dos alvarás de funcionamento vencidos – e da falta de rigor na sua fiscalização. Da superlotação de uma casa que tinha, na prática uma só saída. De bretes construídos para evitar a saída de clientes inadimplentes e que funcionaram como barreiras fatais para as vítimas. De extintores inoperantes. De vedações acústicas improvisadas e que exalaram um gás mortífero ao queimar. De séries de multas aplicadas pela ausência de licenciamento, sem que a boate fosse fechada. E, na culminância desse relato, os policiais citarão nomes dos que consideram culpados por essa situação.

O anúncio dos indiciados no inquérito atrairá atenção mundial. E não há exagero na palavra mundo. O incêndio, ocorrido em Santa Maria em 27 de janeiro, é um marco tenebroso na história do planeta. Tanto que, em menos de 24 horas, convergiram para a cidade do centro do Estado repórteres da Europa, de toda a América e até da China.

Como é usual em casos complicados – e estamos diante da maior investigação da Polícia Civil gaúcha – as dúvidas se acumularam na reta final do inquérito sobre o incêndio. Os cinco delegados que acompanham o caso passaram a manhã, tarde e parte da noite dos três últimos dias numa espécie de conclave, com participação do “papa” de todos eles, o chefe de Polícia Ranolfo Vieira Junior. Sequer telefonemas de familiares atendiam.

Os cinco delegados se dividiram. Luiza Souza tomou depoimentos, Sandro Meinerz tratou do contato permanente com o Instituto-geral de Perícias, Gabriela Zanella interrogou testemunhas e fez um esboço do relatório, Marcos Vianna fez toda a análise documental (de prefeitura e bombeiros, sobretudo) e Marcelo Arigony, o delegado regional, era o cérebro a pensar os rumos do inquérito. O trabalho de montagem do quebra-cabeças contou com apoio de 10 escrivães e inspetores. Em 50 dias, mais de 30 pessoas fizeram investigações e outras 20 prestaram assistência – entre elas, pessoal do serviço de assessoramento jurídico e da Comunicação Social da Polícia Civil.

Apelo no Facebook: “Desejem-nos força”

Ontem, os delegados não viram a luz do sol. O trabalho começou às 8h, passou pela supervisão de Ranolfo e se estendeu por mais de 15 horas. A expectativa era adentrar a madrugada escrevendo. Apesar do assédio da imprensa, os policiais evitaram dar entrevistas e desviaram das câmeras e dos microfones. Chegaram a brincar com os jornalistas, que se revezavam no saguão, mas não escondiam a tensão.

Em seu perfil no Facebook, Arigony pediu “compreensão e cooperação” na reta final. E avisou em sua página nas redes sociais:

“Em razão do número incontável de ligações telefônicas e mensagens que temos recebido, informo que estamos trabalhando incessantemente para concluir o procedimento”.

Com olheiras profundas, que o acompanham desde a data do incêndio, Arigony encerrou a mensagem com um apelo:

“Desejem-nos força!”

Os delegados planejam acordar cedo para acertar os últimos detalhes do material e preparar a apresentação à imprensa. Um desfecho aguardado com ansiedade pelos santa-marienses. Em uma hora, pelo menos 50 pessoas pararam em frente à boate Kiss na tarde de ontem, na Rua dos Andradas, no centro da cidade. Das três pistas daquela rua, uma delas, em frente à danceteria, permanece isolada para peregrinação das pessoas.

Nas outras duas faixas, os motoristas reduzem a velocidade em sinal de respeito e para ver como está o cenário das mortes. Ali aparecem curiosos, pessoas que perderam amigos e até familiares de vítimas. As mensagens, fixadas em cartazes colados aos tapumes em frente à fachada do prédio, convidam a uma reflexão sobre a vida – e também sobre as responsabilidades por essa que foi a maior tragédia do Rio Grande do Sul.

quinta-feira, 21 de março de 2013

SOBE PARA 29 OS MORTOS NA TRAGÉDIA DE PETRÓPOLIS


Bombeiros encontram mais um corpo e sobe para 29 número de mortos no RJ. Estima-se que ainda haja três pessoas soterradas na região do bairro Quitandinha, em Petrópolis

Marcelo Gomes - O Estado de S.Paulo, 21/03/2013



RIO DE JANEIRO - Bombeiros encontraram, por volta das 8h30m desta quinta-feira (21), o corpo de um homem no córrego que margeia a Rodovia BR-040, no trecho próximo à comunidade Vila São Joaquim, no bairro Quitandinha, em Petrópolis, na Região Serrana do Estado do Rio. Com isso, sobe para 29 o número de mortos em decorrência do temporal que atingiu a cidade no último domingo.



Marcos de Paula/AE
Bombeiros ainda procuram por vítimas


As buscas foram retomadas no início da manhã na Vila São Joaquim, onde uma avalanche de lama destruiu pelo menos três casas. Estima-se que ainda haja três pessoas soterradas no local.

Quatorze feridos permanecem internados no Hospital Santa Teresa, quatro delas no CTI: o membro da Defesa Civil Ricardo Correa, de 45 anos; Gabriel Felipe Ribeiro de Souza Matos, de 28; Liliane Pereira da Silva, de 15; e Rodrigo Oliveira, de 21 anos.

Os outros internados são Carlos André de Paula Rodrigues, de 6 anos; Adriano Jorge Barbosa de Oliveira, de 14; Juliane Cristina de Almeida, de 26; Marcelo da Silva Moura, de 41; Geraldo Maurício, de 52; Paulo Vinícius Mattos, de 47; Maria Aparecida Rodrigues, de 44; Rondinelli Santana de Oliveira, de 35; Rafaela de Oliveira, de 23; e Bruno Francelito, de 23.


Nada se fez e a tragédia se repetiu

OPINIÃO O Estado de S.Paulo


Dois anos depois da maior tragédia do Brasil, na região serrana do Rio de Janeiro, e sem que neste ínterim nada tivesse sido feito para protegê-los, sobreviventes dela foram de novo atingidos por chuvas fortes. Desta vez, até terça-feira, havia 27 mortos, entre os quais 12 crianças e 2 agentes da Defesa Civil, soterrados quando trabalhavam no resgate, além de 20 feridos, 560 desabrigados e de 10 a 15 desaparecidos sob escombros.

Os temporais de 2011 provocaram a morte de mais de 900 pessoas. Desde então, têm sido anunciadas providências e liberações de verbas para que esse tipo de tragédia não se repetisse. Os riscos na área mais atingida foram mapeados há dois anos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e informados à prefeitura de Petrópolis. Um plano de contenção de encostas em Quitandinha, Alto da Serra, Morin e Bingen ficou pronto no início do segundo semestre de 2012, mas não saiu do papel.

De acordo com dados do Sistema de Acompanhamento Financeiro do Estado, divulgados pelo jornal O Globo, foram orçados R$ 112,8 milhões para o programa de reassentamento da população instalada em áreas de risco, mas apenas R$ 2,2 milhões (2%) foram gastos. Do total anunciado, R$ 60 milhões faziam parte do PAC. As verbas seriam liberadas pelo governo estadual mediante a apresentação de projeto para a realização de concorrências e contratações. Mas a prefeitura até agora só entregou o projeto exigido em 11 de março. Nenhuma casa foi construída.

Os R$ 5,5 milhões destinados pelo Estado para Petrópolis não foram utilizados para financiar obras de contenção de encostas e reconstrução de vias em sete pontos da cidade, porque não ocorreu a licitação marcada para 30 de novembro de 2012. A Secretaria de Obras diz que exigências do Tribunal de Contas do Estado (TCE) atrasaram o processo e o TCE alega ter detectado falhas no edital de licitação, agora marcada para 2 de abril.

Sem uma explicação para não ter empregado as verbas liberadas para as obras, os responsáveis pela administração municipal de Petrópolis tentam transferir a culpa de um para o outro ou simplesmente fogem para não se explicar. O presidente da Comissão das Chuvas do município, vereador Silmar Fortes (PP), tergiversou: "Não sei de quem é a culpa... O que soube é que, com a mudança de governo, se esperou a nova gestão assumir para confirmar as áreas que seriam beneficiadas". O atual secretário de obras, Aldir Cony dos Santos, nega que a administração de que faz parte tenha demorado a agir. "Nós assumimos em janeiro e fizemos tudo até num prazo muito rápido. A gestão passada deu bobeira", disparou.

Ou seja, a autoridade municipal petropolitana nada fez para prevenir deslizamentos nem retirou as 18 mil pessoas, que, segundo elas mesmas, vivem em 4.500 casas construídas nas encostas que deslizam levando tudo morro abaixo quando chove forte sobre o terreno afrouxado pelo desmatamento para a ocupação.

Não se trata de problemas inéditos nem imprevisíveis. Especialistas em consequências de temporais de verão em regiões serranas alertam todos os anos que as mortes nos deslizamentos são consequência de uma conjugação entre a burocracia excessiva para liberar recursos para obras e o oportunismo eleiçoeiro dos políticos que governam os municípios. Para não perderem votos dos moradores de áreas de risco, eles não fazem nada de prático para retirá-los delas ou para impedir que novas ocupações ponham mais gente em risco.

Em Roma para a missa inaugural do Papa Francisco, a presidente Dilma Rousseff não levou em conta nenhuma das evidências acima relatadas, preferindo negar que tenha havido algum problema na prevenção em Petrópolis. "O problema é que muitas vezes as pessoas não querem sair", disse.

Quantas tragédias semelhantes terão de ocorrer para ela perceber que ninguém constrói numa área de risco por amor ao perigo, mas por falta de opções de moradia num país que não resolveu seu déficit habitacional? Mas a presidente não tem motivos para se afligir, como mostra a pesquisa da CNI.