Este Blog retratará o descaso com a Defesa Civil no Brasil; a falta de políticas específicas; o sucateamento dos Corpos de Bombeiros; os salários baixos; a legislação ambiental benevolente; a negligência na fiscalização; os desvios de donativos e recursos; os saques; a corrupção; a improbidade; o crime organizado e a inoperância dos instrumentos de prevenção, controle e contenção. Resta o sofrimento das comunidades atingidas, a solidariedade consciente e o heroísmo daqueles que arriscam a vida e suportam salários miseráveis e péssimas condições de trabalho no enfrentamento das calamidades e sinistros que assolam o povo brasileiro.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

NEGLIGÊNCIA CENTENÁRIA


ZERO HORA 08 de julho de 2013 | N° 17485

143 anos e nenhum Plano de Prevenção Contra Incêndio
Município pretende regularizar situação nos próximos dias junto ao Corpo de Bombeiros, na Capital

ADRIANA IRION

O desencontro de informações da prefeitura de Porto Alegre sobre documentos oficiais de prevenção a incêndio do Mercado Público é um dos personagens no cenário que abalou o coração da Capital, na noite de sábado.

O prédio de 144 anos e por onde passam 50 mil pessoas por dia nunca teve um Plano de Prevenção Contra Incêndio (PPCI), segundo o comando dos Bombeiros. A prefeitura, porém, acreditava que o problema era apenas de documentação vencida. Só hoje, com o funcionamento normal das secretarias, é que o Executivo municipal deve esclarecer a situação.

No sábado, enquanto o prédio ainda ardia, o secretário municipal da Produção, Indústria e Comércio, Humberto Goulart, disse a Zero Hora que o PPCI do Mercado estava vencido havia seis anos, desde 2007. A mesma informação foi repetida pelo prefeito José Fortunati (PDT) em entrevista, na manhã de domingo.

Horas depois, o comandante dos Bombeiros da Capital, tenente-coronel Adriano Krukoski, afirmou que o prédio nunca teve PPCI. Krukoski explicou que o Mercado foi advertido em novembro de 2007 por não ter o PPCI e que, até o momento, o plano não foi apresentado.

Krukoski não soube esclarecer se a ausência do plano foi constatada em fiscalização de rotina ou se foi por conta de denúncia. Quanto ao fato de, nesse período, os Bombeiros não terem voltado a cobrar o documento do Mercado, o oficial explicou:

– O prédio do Mercado, por ser baixo, com muitas saídas, não causava tanta preocupação. Nosso foco são prédios altos, postos de gasolina, casas noturnas. Temos uma estimativa de que de 120 a 150 mil prédios deveriam ter PPCI na Capital. E hoje temos apenas em torno de 28 mil.

Questionado novamente sobre o assunto ontem, o secretário Goulart admitiu a falta de informação:

– Eu dou as linhas gerais (do que deve ser feito), e cada setor toca o seu trabalho. Tinham que tratar da renovação, era o que eu sabia. Agora, se lá em 2007 não existia (o PPCI), não sei. Eu só sei o que é de janeiro (quando assumiu a secretaria) para cá.

Outra informação que fora dada por Goulart foi corrigida pela prefeitura: a de que a formulação do PPCI ainda dependia da finalização de uma licitação para contratar a empresa que faria o projeto. Em entrevistas ontem, o prefeito deu pistas de que o plano já estaria em formulação.

– Nós estávamos tomando todas as providências, tanto é que o laudo pericial, o laudo técnico (que seria um dos documentos que integram o PPCI) já estava aprovado. Todos os extintores haviam sido substituídos, então, todo o sistema estava pronto. Faltava o encaminhamento para os bombeiros, que é uma outra fase – afirmou Fortunati.

Com base na declaração do prefeito, ZH pediu informações para as secretarias da Produção, Indústria e Comércio (Smic) e de Comunicação da prefeitura, que não tinham os detalhes. No final da tarde, foi informado que o assunto estava sendo tratado diretamente pelo vice-prefeito, Sebastião Melo (PMDB).

Prefeitura busca laudo

A prefeitura pretende identificar hoje qual documento assegurava o funcionamento do Mercado Público em relação às normas de segurança contra o fogo. O vice-prefeito, Sebastião Melo, confirmou que o Mercado não estava regularizado junto aos bombeiros.

– As informações estão desencontradas. Só saberemos amanhã (hoje), com a abertura da Smurb (Secretaria de Urbanismo). Vamos ver se havia algum laudo carimbado pelos bombeiros ou só um laudo da prefeitura. Isso é comum em outras situações em Porto Alegre – explicou Melo.

O vice-prefeito disse que também será verificada a situação do PPCI que já estaria pronto e teria sido entregue para análise da Smurb. Quanto à possibilidade de reabrir o Mercado sem um plano de incêndio aprovado, Melo disse que o retorno ao funcionamento não será uma decisão unilateral, já que um grupo de trabalho composto pelos bombeiros e pelo governo do Estado participa das discussões.



O QUE É O PPCI? 

Apreciado pelos Bombeiros, plano atestaria segurança. O Plano de Prevenção Contra Incêndio (PPCI) é obrigatório para prédios com instalações comerciais, industriais, de diversões públicas e edifícios residenciais. Realizado por uma empresa privada, o plano precisa ser aprovado pelo Corpo de Bombeiros. Se o local estiver em conformidade com normas de segurança, é emitido um alvará. Caso contrário, correções são pedidas, e uma nova vistoria é feita em 30 dias.

O QUE DEVE TER - Informações básicas sobre medidas de segurança e prevenção, tais como

SAÍDAS DE EMERGÊNCIA
 - Análise da necessidade da existência de portas de emergência de acordo com a área e o número de pessoas, quantas, com que dimensões e onde devem estar localizadas.

SINALIZAÇÃO - Localização das luzes de emergência para iluminar bem o ambiente e indicar as rotas de saída, que tipo de sinalização é mais adequada e um sistema de alimentação de energia independente da rede principal.
EXTINTORES - Quantidade e tipo de extintores, capacidade e onde serão colocados.

CHUVEIROS AUTOMÁTICOS - Análise da necessidade de instalação de sprinklers (chuveiros automáticos contra incêndio) e hidrantes.

MATERIAIS ADEQUADOS - Verificação dos tipos de materiais utilizados para, se for o caso, retirar o que for inadequados

TRÊS VEZES RENASCIDO DAS CINZAS


ZERO HORA 08 de julho de 2013 | N° 17485

NA HISTÓRIA

Incêndios marcam a trajetória de mercados públicos como os de Porto Alegre e Florianópolis


Estruturas imponentes no cenário de algumas cidades, os mercados públicos carregam consigo uma triste relação com o fogo. Ao longo dos 143 anos do Mercado Público de Porto Alegre, três grandes incêndios já haviam destruído as bancas. Sábado aconteceu pela quarta vez.

Após cada uma das ocorrências, mudanças foram realizadas para melhorar as condições de segurança, como a substituição da madeira usada nas estruturas por metal. No interior do Estado, o mercado de Pelotas, ponto turístico da cidade, foi destruído quase totalmente pelo fogo em 1969.

Pelo país, os incêndios se repetem. Neste ano, há pelo menos dois registros: em Sena Madureira (AC), com 20 boxes destruídos, e em Bom Jesus da Lapa (BA), com sete bancas atingidas.

A ocorrência recente de maior proporção foi em Florianópolis. Em 19 de agosto de 2005, 68 dos 129 boxes foram queimados. A ala norte foi fechada e reinaugurada em seis meses. Antes disso, em 1988, um vazamento de gás havia provocado um incêndio.

Depois do fogo, muitas mudanças foram realizadas no prédio localizado no centro da capital catarinense para evitar que ocorrências desse tipo se repetissem. A estrutura para suporte do telhado, que antes era de madeira, foi executada em aço galvanizado. Também foram instalados sprinklers (espécie de chuveiro automático), hidrantes com alarme, sinalização de abandono do local e para-raios.

Em 3 de janeiro deste ano, um incêndio consumiu o box número 44, na ala norte, que vendia calçados, mas o fogo foi controlado e não se espalhou pelo prédio.

Referência dos centros comerciais populares do país, o Mercado Modelo de Salvador contabiliza cinco grandes incêndios em um século de existência. As chamas destruíram as instalações em 1917, 1922, 1943, 1969 – considerado o incêndio mais grave, pois exigiu a demolição dos escombros e a construção de um novo prédio – e 1984, que resultou em uma ampla reforma antes da reinauguração.



A ILUSÃO DAS LÍNGUAS DE FOGO




ZERO HORA 08 de julho de 2013 | N° 17485

INCÊNDIO NO MERCADO


Uma língua de fogo no segundo andar, na altura do teto, entre o Bar Chopp Atlântico e o restaurante Mamma Julia. Foi o que Daltro Souza viu, no térreo, do centro do Mercado Público, aí pelas 20h30min, logo depois do término do jogo do Grêmio contra o Atlético Paranaense. O fogo começava quase no meio da ala norte, da Avenida Júlio de Castilhos, mas Daltro não se assustou. É funcionário da banca 26, quase do lado oposto. As portas haviam sido fechadas às 18h30min, e ele ainda estava ali, com outro empregado, para trocar uma pia:

– O jogo terminou e eu tinha saído da banca para avisar o pessoal da limpeza que eles poderiam deixar que eu iria limpar o piso aqui do meu lado.

Foi quando viu o fogo. Voltou à banca, avisou o funcionário para que alertasse alguém da segurança e retornou ao corredor. Em menos de um minuto, o fogo tinha crescido e andava para o oeste, para o lado da esquina com a Rua Siqueira Campos, em direção ao restaurante Telúrico. Depois, viu que as chamas seguiam também para leste, sempre pelo alto, pegando o Memorial, que guardava documentos e objetos históricos.

Foi assim, alastrando-se para os dois lados, que o incêndio promoveu uma devastação em “U”, indo até as salas do Sebrae, na ala da Praça Parobé, de um lado, até o restaurante Marco Zero, no lado oposto, da prefeitura.

Daltro tem 30 anos de mercado, onde conseguiu o primeiro emprego. O que ele sentiu, desde o começo, reflete a sensação média de outras testemunhas do incêndio. Intuiu, já do lado de fora, antes das 23h, que, apesar das carências enfrentadas pelos bombeiros, o Mercado seria salvo.

E por que a sensação inicial, de outros que também estavam lá, e dos que viam as imagens pela TVCom, foi de que o maior patrimônio afetivo de Porto Alegre iria virar cinzas? A hipnose das línguas de fogo expelidas pelo telhado provocou a falsa impressão de profundidade do fogaréu. Mas as chamas ficaram, todo o tempo, longe do centro do Mercado, e percorreram o trajeto em “U” a pelo menos cinco metros de altura do chão do térreo.

– A impressão no começo era mesmo de uma fornalha – admitia ontem à tarde Nilson Pilati, da Cooperativa dos Assentados e da banca da Reforma Agrária.

O Mercado Público está atordoado, mas em pé

Pilati chegou ao Mercado às 21h e foi outro que, antes das 23h, estava convencido de que o fogo ficaria no segundo andar:

– O primeiro susto foi: não vai sobrar nada.

Celso Rossatto, dono da banca 10, teve a mesma percepção. Às 21h, quando se aproximou do local, imaginou que tudo seria destruído. Aos poucos, viu que o primeiro piso estava salvo. Foi dormir, aí pela 1h da madrugada, convencido de que sua banca escapara, mas lamentando as perdas de colegas dos restaurantes do segundo andar.

Valdir Sauer, da banca San Remo, mora a algumas quadras dali, saiu de casa correndo e chegou ao Mercado logo depois de iniciado o incêndio. Temia que o fogo chegasse à subestação de energia elétrica, e chegou. Ontem, o vice-prefeito Sebastião Melo transitava pelo mercado com uma preocupação: as bancas dependem da subestação, que será avaliada, para que voltem a funcionar. O vice esteve no local no sábado à noite e foi dormir sem a exata dimensão dos danos. Chegou a pensar em coisa pior. No retorno, ontem à tarde, olhava ao redor, lamentava a destruição de parte do segundo piso, mas se consolava:

– É um alívio.

O Mercado está atordoado – para muito além da questão comercial, como diz Melo –, mas ficou em pé. Salvaram-se a Banca 40, o Gambrinus, o Naval, as especiarias da Banca do Holandês, o Armazém do Confeiteiro – todo o térreo e metade das lojas do segundo piso. O que o fogo consumiu pode ser refeito. O Mercado que cheirava a carvão ontem à tarde estará, daqui a pouco, cheirando de novo a erva doce, pé de porco, tainha, rabada, queijo, história e gente.

MOISÉS MENDES

MERCADO PÚBLICO: FOGO TERIA COMEÇADO ENTRE RESTAURANTES

ZERO HORA 08 de julho de 2013 | N° 17485

INCÊNDIO NO MERCADO PÚBLICO DE PORTO ALEGRE

A INVESTIGAÇÃO

Perícia sobre incêndio no Mercado deve ser concluída em prazo de 30 dias


O incêndio que quase aniquilou mais de 140 anos de história viva de Porto Alegre começou no segundo andar do vetusto prédio, entre três restaurantes e o Memorial do Mercado Público. É um ponto central, situado de frente para a Avenida Julio de Castilhos. Estas são as deduções preliminares da equipe enviada pelo Instituto Geral de Perícias (IGP) para periciar o local e também das informações repassadas por testemunhas ao delegado Hilton Müller, da 17ª DP, responsável pela investigação. A perícia deve ser concluída em 30 dias.

Segundo funcionários do prédio e donos de bancas relataram a Zero Hora e também a policiais civis, as chamas irromperam em algum ponto entre três restaurantes (um de comida vegetariana, outro de culinária italiana e uma choperia). Logo, engolfaram também o Memorial do Mercado Público. O delegado diz que ainda é muito cedo para esclarecer as causas. As hipóteses vão desde escapamento de gás até curto-circuito na fiação do prédio. O gás no prédio é encanado, informa Ivair Maynart, que na prefeitura responde como coordenador do Mercado. Não está excluída a possibilidade de existirem botijões clandestinos. As análises iniciais descartam incêndio proposital, mas nada é conclusivo.

– Todas as definições legais de conclusão e de responsabilidade de quem causou o evento vamos deixar para um segundo momento – explica o delegado.

Imagens serão analisadas

A polícia espera contar com imagens que devem ser obtidas junto a câmeras de vídeo, mas ainda não foram disponibilizadas. Uma situação causou alívio a peritos e policiais: o primeiro andar (o térreo) ficou intacto e muitos lojistas não devem colher prejuízos. O delegado Müller ficou surpreso ao entrar no local:

– O que vimos sábado à noite, pela imprensa, era que o dano era muito grande. Nos surpreendeu muito positivamente que o dano não tinha tanta dimensão. Nossa preocupação agora é mostrar aos gaúchos que a situação não é tão dramática quanto imaginávamos.

O cálculo dos peritos do IGP é de que cerca de 10% do prédio tenha sido consumido pelas chamas. Bem menos grave que a estimativa do Corpo de Bombeiros, feita ainda na noite de sábado, que era de 30% de destruição. Pelo Twitter da Casa Civil, o governo estadual chegou a calcular, no domingo, que 25% do local tinha sido atingido, mas o dado oficial será o do IGP.

HUMBERTO TREZZI E LETÍCIA COSTA



Animais resgatados estão em granja

Um dos temores de quem presenciou as chamas consumindo parte do Mercado Público foi a morte de animais que são comercializados no prédio do Centro Histórico. Mesmo que o fogo não chegasse ao andar térreo, a grande quantidade de fumaça poderia ser prejudicial aos mais de cem bichos da Loja do Galo – a maioria de pequeno porte.

A remoção foi rápida, já que o estabelecimento tem porta voltada para o lado externo da construção, na Avenida Borges de Medeiros. O proprietário, Gilnei Giovanaz, ao ficar sabendo do incêndio pela Rádio Gaúcha, dirigiu-se ao local e abriu a cortina de ferro. Os bombeiros fizeram a remoção, e a titular da Secretaria Especial dos Direitos Animais (Seda), Regina Becker, ofereceu abrigo, transporte e chamou três veterinários. Giovanaz preferiu levar os animais – entre eles galinhas, periquitos e coelhos – para a garagem do irmão, na zona norte de Porto Alegre. Um caminhão do Batalhão Ambiental da Brigada Militar fez o traslado.

– Hoje (ontem), devolvi a maior parte ao fornecedor, que buscou os animais e os levou para uma granja, mais apropriado – disse Giovanaz.

Regina ficou preocupada com os peixes, sem energia elétrica para oxigenar os aquários do Stanivet Pro Aquários. Se os peixes começassem a morrer, poderiam contaminar a água. O gerente da loja, Paulo Roberto Niada, conseguiu compressores à bateria, e espécies foram tiradas do Mercado.


Memorial foi totalmente consumido pelas chamas

Dois espaços dedicados à preservação da memória cultural e da história do Mercado Público de Porto Alegre também foram consumidos pelo incêndio: o Memorial do Mercado e a Livraria Ilhota. Ambos funcionavam na sala 38, no segundo piso.

– Todo o espaço foi queimado. Teremos uma reunião nesta segunda-feira para avaliar quais documentos podem ser recuperados a partir de outras fontes – disse o secretário municipal da Cultura, Roque Jacoby.

Vinculado à Coordenação da Memória da Secretaria Municipal da Cultura, o Memorial tinha um acervo documental e iconográfico sobre o espaço e prestava atendimento a pesquisadores e público em geral. Concebido a partir do projeto de restauração do prédio, foi aberto à visitação em 1999 e realizava exposições de longa e curta duração, além de ações educativas voltadas ao público escolar. O local tinha um banco de imagens digitalizadas para consulta, além de fotos, mapas, plantas e documentos sobre a execução da obra de restauro.

Livraria comercializava obras de artistas locais

Segundo dados do próprio Memorial, nos primeiros seis meses do ano passado, mais de 10 mil pessoas visitaram o local.

No mesmo espaço, funcionava a Livraria Ilhota, que comercializava obras de artistas locais selecionados pelas diversas coordenações da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, além daquelas financiadas pelo Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre (Fumproarte) e impressas pela Editora da Cidade.

PRÓXIMOS PASSOS - Entenda o que a polícia e o IGP irão apurar sobre o incêndio no mercado

INÍCIO DO FOGO - As chamas começaram no segundo andar do prédio do Mercado Público. A perícia tentará esclarecer qual foi o ponto exato em que o incêndio teve início. Dados preliminares indicam que o fogo começou entre três restaurantes e o Memorial do Mercado.

CAUSAS DAS CHAMAS - As hipóteses são as mais variadas, desde escapamento de gás até curto-circuito na fiação. A perícia ainda não sabe qual foi o motivo do incêndio e não descarta nenhuma possibilidade. Os peritos devem finalizar laudo em prazo de até 30 dias.

CÂMERAS DE VÍDEO - A polícia aposta nas imagens das câmeras de vídeo internas do mercado para auxiliar na investigação. Os registros serão solicitados nos próximos dias pelo delegado responsável.

10% do Mercado Público foi consumido pelo incêndio de sábado, segundo análise dos técnicos do Instituto Geral de Perícias (IGP).

INCÊNDIO NO MERCADO PÚBLICO DE PORTO ALEGRE





ZERO HORA 08 de julho de 2013 | N° 17485

Um golpe no coração

CLEIDI PEREIRA E HUMBERTO TREZZI

Porto Alegre adormeceu no sábado com a terrível imagem de um dos seus mais notórios cartões-postais em chamas. Era como se o Inferno de Dante tivesse se aberto sobre o vetusto prédio do Mercado Público de Porto Alegre e engolido seus 143 anos de história. Labaredas se erguiam até quatro metros acima do seu edifício em estilo neoclássico, com torres e muretas arredondadas que, a todos parecia, desmoronariam em questão de horas. Mas não. Feito fênix, o prédio que abriga 111 lojas e restaurantes (oito estabelecimentos foram atingidos no segundo andar) resistiu ao seu quarto incêndio. E, para espanto de quem jamais esquecerá aquelas horas de horror, há possibilidade de que ele volte a funcionar nos próximos dias.

Quem estava nos altos do Mercado Público diz que o fogo começou no segundo andar, entre três restaurantes, por volta de 20h30min – ninguém costuma olhar no relógio, em meio ao pavor. Para a imensa maioria, foi a primeira experiência do gênero. Afinal, o fogo tinha assolado o prédio em 1912, 1976 e 1979, deixando de dar o ar da sua desgraça há mais de três décadas.

Mas então aconteceu. O prédio, talvez o mais frequentado do Rio Grande do Sul (50 mil visitantes/dia), pegou fogo. Ninguém sabe ainda a origem, que pode ser elétrica ou até por escapamento de gás. Extintores havia, mas as tentativas de uso não conseguiram debelar as chamas. Em segundos, a parte situada na esquina das avenidas Borges de Medeiros e Júlio de Castilhos virou tocha, e as chamas se espalharam. As pessoas fugiram assim que sequências de explosões começaram a ocorrer, possivelmente causadas por botijões de gás.

As labaredas eram visíveis a quarteirões. Toda a região do Centro foi isolada para a chegada dos bombeiros, que de início tinham pouco equipamento (página 12) (apenas um caminhão com escada capaz de atingir o topo do edifício), o que provocou críticas como a do presidente da Associação dos Oficiais da Brigada Militar, José Carlos Ricarddi Guimarães. Ele diz que existem cerca de 3 mil bombeiros no Estado e o efetivo deveria ser de 11 mil, caso fossem respeitados padrões da Organização das Nações Unidas (ONU). Uma investigação da Polícia Civil mostrará se houve negligência antes e depois do incêndio. Já se sabe que o prédio, administrado pela prefeitura, não tem Plano de Prevenção e Proteção Contra Incêndio (PPCI) (página 10).

A quase destruição levou autoridades ao local. O prefeito José Fortunati foi a pé de casa até lá. O coronel Silanus Mello, subcomandante da BM, já chegou vestido com capote de bombeiro anti-chamas, que costuma guardar em casa por ter sido oficial dos bombeiros por 15 anos. O vice-governador Beto Grill também correu para o local ao receber a notícia que ninguém gosta de ouvir quando exercia uma função muito eventual: a de governador. O titular do governo, Tarso Genro, está em Portugal. Comandante do Corpo dos Bombeiros, o tenente-coronel Adriano Krukoski se preparava para ir a um aniversário quando foi avisado por colegas da principal guarnição de combate a fogo na Capital, a dos Açorianos, que iam para o local. Eles afirmam ter chegado em quatro minutos. O comandante da BM, coronel Fábio Duarte Fernandes, acredita que o pior foi evitado.

– Ninguém acabou ferido com gravidade, e acredito que o prédio não está comprometido, apesar de ter ficado bastante danificado – avalia.

Perícias preliminares indicam que o coronel Fábio está certo. Após duas horas, o fogo foi debelado. Na manhã de domingo, sob olhares incrédulos e com cheiro da fumaça ainda impregnando o ar, comerciantes com permissão para entrar no prédio custaram a acreditar na bênção: a destruição era bem menor que a imaginada. Até os animais à venda foram resgatados. Foi um festival de suspiros e lágrimas, mas, acima de tudo, de promessas de reconstrução (página 16).

É o caso da família de Nadja Demezur Melo, 33 anos, do Restaurante Gambrinus, com quase meio século de tradição no Mercado Público. Dos grandes incidentes que marcaram a história da estrutura, que é patrimônio dos gaúchos, os Melo só não sentiram os impactos da enchente de 1941. O pai e o avô de Nadja se viram obrigados a recomeçar duas vezes, nos incêndios de 1976 e 1979. Desta vez, foram poupados dos estragos.

– Mas fica a dor pela história que o Mercado tem e, como a gente é como uma família aqui, acaba sofrendo pelas perdas dos outros – pondera Nadja, que cresceu brincando com o irmão entre as bancas do local.

Outros, entretanto, não tiveram a mesma sorte. Denize Viana, 60 anos, e Jorge Rosa, 54 anos, que há uma década realizam mensalmente a feira do vinil no Mercado Público (venda de LPs), calculavam prejuízo de até R$ 30 mil por expositor – um total de R$ 240 mil. Os discos raros ficavam armazenados no segundo pavimento da estrutura, o mais danificado.

– É o nosso ganha-pão. Esperamos que coloquem um outro lugar à nossa disposição – afirma Rosa.

Denize não lamenta o prejuízo:

– Perdi uma sobrinha no incêndio da boate Kiss, então, vou tirar mais essa de letra.

A comoção não é só dos comerciantes. Frequentadores assíduos do Mercado Público, como a aposentada Janete Conceição de Sá Oliveira, também deixaram suas residências para, com frio e chuva, conferir de perto a situação do prédio.

– O Mercado é tudo pra mim. Compro aqui minha comida e até meus panos de prato para bordar – conta, antes de interromper sua fala para consolar um grupo de conhecidos comerciantes.

O prefeito Fortunati, que tem marcado um encontro com a presidente Dilma Roussef para tentar um financiamento para recuperação do Mercado (página 14), acredita que da quase tragédia pode vir uma lição:

– O Mercado vai se recuperar. E sairá dessa melhor do que está.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

CPI DA KISS EM XEQUE


ZERO HORA 27 de junho de 2013 | N° 17474

SANTA MARIA


Adivulgação de gravações que comprometeriam a idoneidade da CPI que investiga a participação de servidores públicos no incêndio da boate Kiss – que matou 242 pessoas no dia 27 de janeiro – foi o combustível para uma manifestação que colocou os vereadores de Santa Maria contra a parede. As gravações indicariam a tentativa de proteger o governo de Cezar Schirmer (leia quadro ao lado). O descontentamento em relação aos rumos do trabalho da comissão que apura as responsabilidades pela maior tragédia gaúcha resultou na ocupação do prédio da Câmara Municipal, um ato que até o final da noite de ontem ultrapassava 30 horas.

Os cerca de 1,1 manifestantes que ocuparam o prédio a partir das 16h30min de terça-feira apresentaram demandas como a saída do procurador jurídico da Câmara, Robson Zinn, a destituição da CPI e a renúncia dos três vereadores que integram a comissão. Ontem, durante todo o dia, foram feitas inúmeras reuniões entre representantes dos partidos e os próprios vereadores. Com o passar das horas e a crescente insatisfação do grupo que ocupava o plenário, a tentativa de união entre as siglas foi por água abaixo.

Marcelo Bisogno (PDT), presidente da Casa, tentou, inúmeras vezes, articular uma solução. Ele revelou que a destituição da CPI era algo impossível de ser feito. A CPI – formada por Maria de Lourdes Castro (PMDB), Sandra Rebelato (PP) e Dr. Tavores (DEM), todos da base governista – emitiu nota informando que só se manifestaria sobre o assunto depois da desocupação do prédio.

A madrugada de vigilância, feita por um grupo de mais de 300 pessoas (a maioria jovens e alguns parentes ligados às vítimas da tragédia da Kiss), se estendeu ao longo de quarta-feira. Durante todo o dia, a massa entoava palavras de ordem e cânticos de ironia à administração do prefeito Cezar Schirmer e à CPI.

Durante a madrugada, o Plenário virou dormitório. As mesas dos vereadores e da presidência da Casa serviram de camas. No começo da manhã, o plenário dava espaço ao refeitório. No hall do prédio, três cafeteiras e muitas térmicas de café – além de pães, margarina, queijo e mortadela – eram servidos aos ativistas. No segundo andar, no plenarinho da Casa, integrantes da Guarda Municipal também faziam uma pausa para o lanche. O cardápio era o mesmo: pães, margarina, queijo e mortadela. Para beber, refrigerante e café com leite.

O almoço dos manifestantes reprisou o café da manhã, porém, com mais fartura. No começo da tarde, um grupo de ativistas varreu o plenário em alusão “à sujeira da Câmara e da CPI”.

Excessos também foram registrados. No banheiro, era possível ver símbolos do anarquismo e palavras de ordem pichados nas paredes. O vandalismo se estendeu também para a fachada da Casa. Uma cruz, fixada dentro do plenário do Parlamento, foi retirada por manifestantes.

Nova gravação acirrou ânimos

No final da tarde de ontem, integrantes de movimentos divulgaram um novo áudio em que parentes das vítimas estão conversando com o vereador Tavores Fernandes – membro da CPI – e um assessor de seu gabinete. Por 15 minutos, os mais de 300 manifestantes que permaneciam no local escutaram a gravação, em silêncio, por meio de um alto-falante improvisado.

Conforme o presidente da associação dos familiares das vítimas, Adherbal Alves Ferreira, a gravação deixa claro, por meio da declaração do assessor do parlamentar, que as demais vereadoras – Sandra Rebelato e Maria de Lourdes Castro – sabiam que a CPI “não poderia dar em nada”. Os manifestantes pediram a renúncia dos 11 parlamentares que assinaram a criação da comissão. As gravações serão encaminhadas a Polícia Civil e ao Ministério Público.

“Ela pediu (alertou) que não podia dar em nada (a CPI), porque chegaria não sei onde”.

O assessor referiu-se a uma suposta declaração de Sandra Rebelato (PP), em relação à condução da CPI, que poderia acabar atingindo o gestão de Schirmer.

“Vai chegar no final (...), o custo político vai ser muito grande”.

O assessor projetou que, quando a CPI terminar, dependendo dos rumos da investigação, o custo político para o governo municipal poderia ser grande

“Vamos jogando porque vai chegar no Mânica (referindo-se ao secretário de Relações de Governo e Comunicação, Giovani Mânica), e chegando no Mânica, vai chegar no prefeito”.

A parlamentar referia-se a uma suposta declaração de Sandra Rebelato, que teria dito, no início da CPI, que a comissão deveria ter cuidado na condução do trabalho para evitar que a imagem da prefeitura fosse atingida.

“Se for para (sic) o prefeito, azar o dele. Ninguém mandou se cercar de gente incompetente (...) Pra mim, chega!”

A vereadora demonstra insatisfação com os rumos da CPI e questiona a falta de ação do procurador-jurídico da Câmara, Robson Zinn (que também é presidente do PMDB municipal), em “segurar” os ímpetos de Sandra.

“Vocês já pensaram o que vamos perguntar para essas pessoas?”

Maria de Lourdes se referia à convocação de pessoas inicialmente não previstas para depor na CPI.

“Ela defere (os pedidos da oposição de convocação de depoentes) e fica ela de boazinha. Não! Ela é muito safada, gente!”

Para a vereadora, Sandra estaria aceitando pedidos de convocação de depoentes não previstos pela comissão.

“O pior de tudo da Sandra é que ela dá o tapa e esconde a mão”.

Maria de Lourdes critica suposta postura ambígua de Sandra na CPI.

LEANDRO BELLES | SANTA MARIA


quinta-feira, 13 de junho de 2013

OMISSÃO DE SOCORRO É DESCARTADA



ZERO HORA, 13 de junho de 2013 | N° 17461

SUA SEGURANÇA | HUMBERTO TREZZI



Nem omissos, nem irresponsáveis. Os policiais militares que atuaram no dia da tragédia da Kiss foram heróis. Essa é a conclusão do Inquérito Policial Militar (IPM) com quase 7 mil folhas que investigou a tragédia-mor da história gaúcha. Na investigação própria que fez sobre o incêndio da Kiss, a Brigada Militar manteve imaculada a porção da tropa que mais credibilidade tem junto à população: o Corpo de Bombeiros. Tirou conclusões muito diferentes das da Polícia Civil. Em março, o inquérito criminal feito por policiais civis recomendou que sete bombeiros fossem processados pela Justiça Militar por falhas na prestação de ajuda às vítimas e no combate ao incêndio na Kiss. Os policiais civis concluíram que esses militares teriam cometido homicídio culposo (por atos de negligência, imperícia e imprudência), ao não fazer tudo que poderiam e expor voluntários a risco.

Os voluntários ingressaram no local sem equipamento de segurança ou treinamento. Testemunhas dizem que pelo menos cinco pessoas que entraram para salvar os frequentadores da boate morreram, sufocadas pelos gases tóxicos emanados do fogo – embora o IPM tenha obtido provas da morte de apenas três desses socorristas improvisados. A Polícia Civil concluiu que muitos desses voluntários entraram num lugar onde só profissionais poderiam entrar, com máscara. E que alguns bombeiros fizeram outros assumirem um risco que deveria ser de pessoas treinadas, inclusive se negando a oferecer máscaras e equipamentos aos voluntários.

O IPM descartou culpa dos bombeiros nesses episódios. Conforme o major Emílio Barbosa Teixeira, assessor jurídico da investigação, muitos jovens socorristas burlaram a vigilância policial para entrar na Kiss:

– Estavam em uma situação de guerra. PMs ainda formaram um cordão de isolamento para impedir que muitos jovens entrassem, mas é difícil impedir que alguém tente salvar vidas.

Conforme o coronel Flávio da Silva Lopes, que chefiou o IPM, 12 bombeiros compareceram ao local e se dividiram em três tarefas: manusear os caminhões e equipamentos, combater o fogo e salvar pessoas.

– Se não tivessem ficado com a mangueira aspergindo água em spray e nem aberto buracos no teto e nos fundos da boate, muito mais pessoas teriam morrido. Ninguém teria conseguido entrar para fazer resgate. E vários bombeiros, inclusive um de folga, ajudaram nos resgates – pondera o coronel, ao justificar porque nenhum PM foi indiciado por omissão de socorro.