Este Blog retratará o descaso com a Defesa Civil no Brasil; a falta de políticas específicas; o sucateamento dos Corpos de Bombeiros; os salários baixos; a legislação ambiental benevolente; a negligência na fiscalização; os desvios de donativos e recursos; os saques; a corrupção; a improbidade; o crime organizado e a inoperância dos instrumentos de prevenção, controle e contenção. Resta o sofrimento das comunidades atingidas, a solidariedade consciente e o heroísmo daqueles que arriscam a vida e suportam salários miseráveis e péssimas condições de trabalho no enfrentamento das calamidades e sinistros que assolam o povo brasileiro.

domingo, 26 de janeiro de 2014

O PRANTO E O CRIME


ZERO HORA 26 de janeiro de 2014 | N° 17685

ARTIGO

por Flávio Tavares*




A tragédia de Santa Maria foi tão ampla e profunda, tão insólita e absurda, que ainda não terminou. Um ano depois, tudo nela se multiplica, como se o horror fosse algo corriqueiro a imitar, não uma carnificina a punir. Naquele domingo de 2013, primeiro foi o espanto: mais de 200 corpos inertes, um ao lado do outro, num quadro que nem sequer a ficção sádica de um filme de terror ousaria inventar e que, no entanto, era verdade. Passado o espanto, veio a dor e veio o pranto. Choramos todos! Com as lágrimas nos solidarizamos com as vítimas, mostrando que naquela brutalidade não havia dor alheia, pois a dor estava também dentro de nós.

A presidente Dilma interrompeu sua visita ao Chile e voou diretamente a Santa Maria para certificar-se da tragédia. O mundo inteiro espantou-se! Mas e daí?

Um ano depois, a dor se multiplica. Agora, com amor e respeito choramos pelos 242 mortos. Mas choramos, também, de raiva e impotência: não há responsáveis pelo crime. Ninguém assume sequer uma nesga de participação em nada, como se os únicos envolvidos na tragédia fossem as próprias vítimas. Todos se dizem alheios a tudo. Dos donos da boate (que armaram a ratoeira sem saídas) aos fogueteiros da banda, do prefeito de Santa Maria aos fiscais e bombeiros (que legalizaram o absurdo), ninguém assume sua parte no desastre que virou crime.

Essa mesquinhez absurda é degradante. Por que nossas instituições são insensíveis ao delito? Onde está a responsabilidade empresarial? Por que cortejar a impunidade, como se tudo fosse permitido ao crime?

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Nesta tragédia, tudo é espantoso. Já lembrei aqui que nem na Guerra dos Farrapos, nem na Revolução de 1893 (em que cada lado saía para matar e festejava a matança), houve 242 mortos de uma só vez. Espanta, também, o desdém a que foi relegada a minuciosa investigação dos delegados de polícia Marcelo Arigony e Sandro Meinerz. Milhares de páginas com centenas de laudos periciais, testemunhos e interrogatórios foram tratadas pelo Ministério Público como se retratassem uma rixa entre vizinhos. Terá sido a partir daí que se abriu caminho à impunidade?

Será que as formalidades processuais pesaram mais do que a realidade, como se a lei não devesse interpretar a vida e não existisse para coibir a multiplicação da maldade? Terá sido esta a via pela qual se guiou o poder judicial, quando optou pela situação atual, em que os responsáveis diretos e indiretos desfrutam de plena liberdade?

Livres, os implicados na tragédia comportam-se como se fossem vítimas da ânsia de justiça. Sem qualquer gesto de arrependimento ou humildade, tentam eximir-se pela arrogância, transmitindo às cinzas a responsabilidade de tudo.

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Santa Maria transformou o luto em luta e resiste. Fora disto, porém, o crime impune serviu de guia à corrupção: na prefeitura de Porto Alegre passaram a “vender” licenças de funcionamento a casas noturnas, com base na experiência das fraudes de Santa Maria. Foi a única consequência direta da tragédia...

Em 2013, no dia seguinte ao incêndio, escrevi neste jornal:

“Consumada a tragédia, além do pranto e da solidariedade, o caminho árduo, agora, é chegar aos assassinos diretos e indiretos (...) pois os culpados transformam-se em autores de um homicídio coletivo. (...) A tragédia exige pensar a fundo e indagar sobre o hedonismo da sociedade de consumo, que transforma tudo em mercadoria de venda fácil. Até a vida de duas centenas de jovens que buscavam divertir-se. Esta tragédia não é apenas dramática e brutal, é revoltante!”.

Hoje, um ano depois, indago: quando veremos a justiça substituir a revolta?


*JORNALISTA E ESCRITOR






O QUE NÃO APRENDEMOS COM SANTA MARIA



ZERO HORA 26 de janeiro de 2014 | N° 17685


PÁGINA 10 | ROSANE DE OLIVEIRA



Você saberia dizer se a casa noturna que seu filho frequenta respeita a lotação máxima? Seu filho identifica as saídas de emergência quando chega a uma festa? Você mesmo, quando entra num local pela primeira vez, passa os olhos pelas paredes para identificar onde estão os extintores de incêndio? Provavelmente, não. E você não está só. Cuidados que pareciam ter entrado na nossa rotina logo depois da tragédia na boate Kiss foram caindo no esquecimento ao longo do ano. Talvez não tenhamos aprendido nada com Santa Maria.

Dezenas de casas fecharam as portas, mas a onda de fiscalização que varreu o país depois de 27 de janeiro de 2013 foi aos poucos caindo em desuso. Porque se consideram imortais, os jovens que não vivem em Santa Maria ou que não perderam amigos na tragédia acham que com eles nada acontece. E afrouxam a vigilância.

Não é só aos jovens que devemos perguntar se nada aprenderam com Santa Maria. É aos pais, mães e, principalmente, às autoridades que devemos perguntar quais foram as lições aprendidas com a maior tragédia da história do Rio Grande do Sul.

A Assembleia Legislativa fez sua parte. Aprovou uma nova lei de prevenção a incêndios, fruto de um trabalho coletivo que mobilizou políticos, bombeiros, engenheiros e especialistas. Se uma lei assim existisse – e fosse cumprida – a Kiss não teria aberto as portas. Se fizesse todas as adaptações exigidas na nova lei, um incêndio não teria as proporções catastróficas que teve o da madrugada de 27 de janeiro.

A Câmara dos Deputados criou uma comissão externa para acompanhar as investigações e propôs uma lei federal para padronizar as exigências de segurança no licenciamento. A proposta tramita em regime de urgência e está pronta para ser votada em plenário desde outubro.

O projeto determina que o poder público municipal e o Corpo de Bombeiros divulguem na internet as informações sobre os alvarás de licença e pune com até dois anos de detenção quem descumprir as determinações sobre prevenção e combate a incêndios. Assim como na lei estadual, define as responsabilidades para acabar com o jogo de empurra verificado na Kiss e que contribui para a sensação de impunidade.

ALIÁS

Se os familiares das vítimas da Kiss concordarem, Valdeci Oliveira apresentará projeto fixando o 27 de janeiro como dia estadual dedicado a debates sobre proteção e prevenção a incêndios.

sábado, 25 de janeiro de 2014

NADA MUDOU UM ANO APÓS A TRAGÉDIA DA BOATE KISS

REVISTA ISTO É N° Edição: 2305 | 24.Jan.14

Nada mudou


Um ano após a tragédia que matou 242 pessoas na boate Kiss e escancarou as condições precárias das casas noturnas brasileiras, ISTOÉ visita baladas do eixo Rio-São Paulo e constata que elas continuam perigosamente inseguras

Mariana Brugger, Raul Montenegro, Simone Felício e Wilson Aquino



Assista ao vídeo dos flagras da falta de segurança nas baladas


Depois que passa, a gente se dá conta do absurdo que é um jovem entrar num buraco daqueles e sair morto”, diz Elaine Gonçalves, que há um ano perdeu dois filhos no incêndio da boate Kiss, em Santa Maria (RS). No dia 27 de janeiro de 2013, depois de um dia de calor intenso no interior gaúcho, 242 pessoas morreram na tragédia que escancarou ao País as condições precárias das casas noturnas brasileiras. Na época, muitas promessas foram feitas – com estabelecimentos e autoridades de todas as esferas se comprometendo a endurecer medidas de combate ao fogo no território nacional. Um ano depois, porém, quase nada saiu do papel e muitos dos “buracos” continuam funcionando sem condições mínimas de proteção. Em um deles, visitado por ISTOÉ, uma pessoa pode se deparar com uma parede de tijolos ao abrir a porta de emergência que deveria levá-la ao lado de fora.



HORROR
27 de janeiro de 2013: pânico em Santa Maria na madrugada
da tragédia. Um ano depois, ninguém foi punido

A imagem que beira o surreal pode ser vista numa casa de shows localizada entre os bairros de Pinheiros e Vila Madalena, dois dos mais badalados de São Paulo. A reportagem foi a boates da capital paulista e do Rio de Janeiro na semana passada para verificar as condições de segurança das baladas, o que já havia feito no ano passado, e constatou que pouca coisa mudou.

Naquela madrugada de domingo em Santa Maria, a existência de uma única saída foi uma das causas apontadas por especialistas para o número de mortes. A maioria das casas noturnas visitadas possui problemas nas saídas de emergência. Na Ó do Borogodó, que emparedou um dos acessos à rua, instrumentos musicais bloqueavam outra porta da casa. De acordo com o proprietário Leonardo Gola, o prédio possui outros dois acessos que são suficientes. No pub Kia Ora, na zona oeste paulistana, uma delas leva à cozinha, que, por sua vez, termina numa passagem trancada. No Beco 203, na rua Augusta, centro de São Paulo, uma das saídas, ao lado do fumódromo, estava fechada no dia da visita. Os frequentadores também dariam com a cara na porta de emergência do Maavah, bar da zona leste paulistana que toca música sertaneja e pagode. ISTOÉ não conseguiu contato com Beco 203 e Maavah. O Kia Ora disse que um botão ao lado da porta que dá para a rua, quando pressionado, libera a passagem. No Rio, o caso mais grave foi o da 021 Club, na Barra, cuja entrada é cercada por grades de metal fixas, empecilho invencível para sair do lugar em caso de incêndio. Apesar das três saídas de emergência, não há sinalização, aponta Vinicius Cavalcante, diretor da Associação Brasileira de Profissionais de Segurança no Rio, que acompanhou a reportagem. Procurada, a casa não se pronunciou. No centro carioca, o Pampa Grill tinha mesas e uma porta de metal obstruindo saídas.



Edgar Vargas, gerente do local, reconheceu as falhas. A Casa da Matriz, em Botafogo, chegou a ser fechada por dois dias no ano passado devido a problema de alvará, mas se regularizou. Na quarta-feira 22, entretanto, acontecia uma festa que tinha, na decoração, uma piscina de plástico na saída. “Confesso que não sabia, mas vamos alertar as produções”, afirma Léo Feijó, sócio. No inferno da Kiss, sobreviventes relataram que muita gente foi parar no banheiro pensando se tratar de uma rota de fuga. No Studio RJ, em Ipanema, há a mesma armadilha: a porta do fumódromo, que leva a um cômodo fechado, parece uma saída de incêndio. A boate não se pronunciou.

Outro problema grave é a lotação. Na boate Kiss, testemunhas contaram que havia pelo menos mil pessoas no dia do incêndio, apesar de a casa oficialmente comportar 691. Em São Paulo, num cartaz da balada D.Edge, na zona oeste, está escrito que lá cabem 360 pessoas. Funcionários ouvidos pela ISTOÉ, no entanto, afirmam que a boate recebe até dois mil frequentadores. Na segunda-feira 20, a reportagem contou entre 200 e 300 pessoas só no deque superior. Em nota, a D.Edge afirmou que possui autorização para abrigar 609 frequentadores. Na Fosfobox, em Copacabana, a placa afixada do lado de fora consta a capacidade de 100 pessoas, mas há muito mais gente do lado de dentro. Cabbet Araújo, dono, explica: “Nossa licença permite 100 pessoas por pavimento.” Os materiais também são item fundamental na segurança. Na tragédia do ano passado, foi a espuma inflamável do teto que pegou fogo depois que o vocalista da banda Gurizada Fandangueira acendeu um sinalizador durante o show. Na The History, localizada na zona oeste paulistana, a reportagem flagrou uma garrafa com vela que soltava faíscas, o que não é recomendado pelos bombeiros – a administração afirmou que a chama não oferece riscos. Na casa noturna Alberta #3, no centro de São Paulo, o teto da pista de dança também é de espuma. A fiação e uma tomada elétrica ficam próximas ao forro, mas a assessoria informa que o material é antichamas. Já na carioca Rio Music, fios expostos e assentos com espuma podem ajudar na propagação de incêndios. “Ainda existem elementos de papel na decoração”, afirma Jaques Sherique, engenheiro especializado em segurança e vice-presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio (CREA-RJ), que percorreu endereços noturnos com a ISTOÉ. Ulisses Xavier, sócio, informou que a casa já passou pelo processo de adequação e está em dia com os bombeiros. “Um grande problema é que esses produtos não são avaliados. Na área da saúde você não vê remédios sendo vendidos sem teste” afirma José Carlos Tomina, superintendente do Comitê Brasileiro de Segurança Contra Incêndio da ABNT.



Muitas das casas do País funcionam sem alvará. Em São Paulo, segundo a prefeitura, foram emitidas ou revalidadas 178 permissões para locais com capacidade superior a 500 pessoas em 2013. Mais 224 estabelecimentos estão abertos aguardando regularização. No Rio, 2.600 “casas de diversão” foram vistoriadas pelo município. Desses, 825 foram autuados por funcionarem sem alvará ou em desacordo com a documentação. Belo Horizonte (MG) tem apenas 34 locais de shows completamente regulares, dos 264 vistoriados em 2013. Entre os 201 estabelecimentos visitados em Porto Alegre (RS), 98 possuíam licença e 71 estão fechados por falta de documentação. Já em Salvador (BA), a prefeitura fiscalizou 64 casas noturnas no ano passado – 20 foram interditadas, mas 12 já estão funcionando. Estudiosos afirmam que há pouca gente para fazer a fiscalização. Somente 14% dos municípios brasileiros têm Corpos de Bombeiros, o principal parceiro das autoridades nesse trabalho.





Desde o caso Kiss, a legislação referente ao tema avançou um pouco. O Rio Grande do Sul aprovou regras mais duras no ano passado, como uma maior rigidez na obtenção de alvarás de prevenção contra incêndio, por exemplo, mas elas vão demorar meses para sair do papel. Em Santa Catarina, bombeiros lutam pelo poder de interditar imediatamente locais que ofereçam riscos – o que já acontece no Rio. Tomina, da ABNT, diz que é muito complicado não haver uma legislação nacional sobre o tema. “Os Estados têm sua legislação própria. Isso é muito ruim porque não há um padrão.” Depois do desastre de Santa Maria, a Câmara dos Deputados começou a discutir um projeto de lei para sanar essa questão. A proposta ficou pronta em julho, mas aguarda votação no plenário. O deputado Paulo Pimenta (PT-RS), que coordenou uma comissão sobre o assunto na Casa, afirma que a demora se deu por causa da análise de assuntos com urgência constitucional – que têm prioridade – no ano passado. Para ele, porém, é preciso aproveitar a retomada do interesse para votar a matéria. “O Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), presidente da Câmara, fez a promessa de colocar em votação na primeira semana de fevereiro.”



Uma das promessas do projeto federal é responsabilizar agentes públicos que não cumprirem suas obrigações de fiscalização. Um ano depois da Kiss, esse é um dos pontos mais incômodos para os familiares das vítimas. “Ficou um sentimento de impunidade”, afirma Helena Rosa da Cruz, mãe de duas vítimas do incêndio. Processos de homicído correm contra dois integrantes da banda e dois proprietários da boate, que chegaram a ser presos, mas foram soltos meses depois. Outros dois inquéritos, sobre poluição sonora e fraude no licenciamento, devem ser concluídos em fevereiro. Para que outras famílias do País não sofram o mesmo que as de Santa Maria, Tomina, da ABNT, diz que deve haver boas regras, produtos de qualidade e fiscalização. “Temos 1.200 vítimas fatais por causa de incêndios anualmente no Brasil. São cinco boates Kiss todo ano.” É preciso dar um basta.

Fotos: Germano Roratto/Ag. RBS/Folhapress; Masao Goto Filho, Kelsen Fernandes, Mariana Brugger – Ag. IstoÉ, Masao Goto Filho, Kelsen Fernandes, Fernanda Ramos – Ag. IstoÉ

DA LEI À INICIATIVA EXEMPLAR


ZERO HORA 25 de janeiro de 2014 | N° 17684


ARTIGOS


por Adão Villaverde*



Uma gota dágua no oceano ou um grão de areia no deserto são expressões que superlativam e exageram a pequenez de algumas iniciativas meritórias, ainda que insuficientes, diante do todo.

Entretanto, sabe-se muito bem que o mar é feito de gotas que se somam coletivamente e a areia é formada por grãos que se amalgamam em conjunto.

Assim, uma ação isolada de um tradicional espaço cultural da Capital, que passou a aplicar desde já determinações da nova lei de prevenção e proteção contra incêndios no RS, aprovada na Assembleia Legislativa e sancionada pelo governador Tarso Genro no final do ano passado, reveste-se desse valor aparentemente diminuto, mas certamente exemplar, que ajudará a desencadear um novo comportamento cultural de preservação da vida dos gaúchos e, no caso prático, dos porto-alegrenses.

Esta casa de espetáculos logo deverá ser privilegiada pela afluência ampliada de frequentadores mais alertas e cuidadosos, com pais igualmente preocupados com a segurança noturna dos filhos. E se diferenciará no meio do entretenimento até que os concorrentes se deem conta de que também devem adequar-se à legislação, sob pena da condenação mercadológica antes mesmo da penalização legal, que a regulamentação da lei vai impor com sanções rigorosas para os infratores.

Fiquei agradavelmente satisfeito ao verificar, pes-soalmente, que, além das medidas de adequação à lei, antes da apresentação do show diário, por exemplo, essas são complementadas com a projeção de um vídeo simples e direto, que orienta os presentes para agir em caso de ameaça de fogo e evitar o pânico que se estabelece, principalmente, quando não há clareza sobre os procedimentos, dispositivos e equipamentos preventivos de incêndios.

Convém esclarecer, a propósito, que a aplicação da nova lei tem quatro prazos distintos para cumprimento.

Um deles determina que todas as novas edificações, para além das casas de espetáculos, já sejam construídas sob a égide da legislação aprovada, desde sua promulgação em 26 de dezembro último.

Outro estabelece que todo imóvel que passou ou passará por reforma ou alteração de uso terá que se adequar à lei complementar 14.376/2013, assim que ela for regulamentada pelo Executivo, após detalhamento de Resoluções Técnicas do Corpo de Bombeiros, que deve ocorrer ainda no primeiro semestre deste ano.

O terceiro prazo incide nos demais prédios existentes, mais antigos e sem mudanças construtivas ou de uso, pois estes têm cinco anos de adaptação à legislação. A propósito, nos Estados Unidos este prazo foi de 10 anos.

E, por fim, os municípios têm o prazo de um ano para atualizarem as suas legislações.

Como tenho insistido, a nós todos cabe, especialmente a partir de agora, com a proteção da nova lei, procurar saber sempre que lugares devemos frequentar sem colocar em risco mais nenhuma vida.

*Engenheiro, professor, deputado, presidente da comissão especial que atualizou a legislação na Assembleia Legislativa do RS

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

SPRAY DE PIMENTA EM BOATE CAUSA CONFUSÃO

ZERO HORA 13 de janeiro de 2014 | N° 17672


SUSTO NA BALADA. Incidente ocorreu em Guaporé, na Serra, e 18 pessoas foram para o hospital


A diversão em uma festa de música eletrônica acabou em pânico em Guaporé, na Serra. Um dos frequentadores espalhou spray de pimenta no local, que teve de ser evacuado.

Conforme a Brigada Militar (BM), na madrugada de ontem, cerca de 500 pessoas estavam na boate Absolut Music Hall, que fica localizada no centro do município.

Devido ao efeito do gás, que causa ardência nos olhos e dificuldade para respirar, alguns frequentadores acharam que o local estava pegando fogo e chamaram os bombeiros por volta das 2h30min. Houve tumulto durante a evacuação da casa noturna, e algumas pessoas teriam sido pisoteadas.

A boate foi completamente esvaziada em menos de 10 minutos por meio de duas saídas de emergência, ação considerada rápida pelos bombeiros. Dezoito frequentadores passaram mal e precisaram ser encaminhados ao Hospital Manoel Francisco Guerreiro, onde receberam atendimento médico e foram liberados.

Os bombeiros encontraram o tubo do spray de pimenta na pista de dança. A lata foi apreendida e será encaminhada à Polícia Civil, que investigará o caso. A polícia tem um suspeito de ter acionado o spray, mas não sabe ainda qual a motivação. Procurado pela reportagem, o proprietário da casa noturna não retornou as ligações.

fernandadacosta@zerohora.com.brFERNANDA DA COSTA




ENTREVISTA

“Pessoas caíram e foram pisoteadas”



Por telefone, Marciano Farias, 28 anos, que mora em Guaporé e trabalha no setor de produção em uma fábrica de roupas íntimas, relata o susto durante a festa.

Zero Hora – Como tudo começou?

Marciano Farias – Eu estava no fundo da boate. Acho que espalharam o spray no meio da pista de dança, e as pessoas saíram correndo, sem saber direito o que estava acontecendo. Algumas acharam que era incêndio. Eu senti um cheiro forte e irritação nos olhos.

ZH – A evacuação foi rápida?

Farias – Sim, não demorou muito para todo mundo sair. Os seguranças liberaram as saídas, e a boate não estava lotada. O problema foi que algumas pessoas caíram e foram pisoteadas. Foi um susto grande, na hora do tumulto todo mundo só pensa em sair correndo e acaba empurrando os outros.

ZH – Como foi o atendimento para quem passou mal?

Farias – Os bombeiros chegaram rápido, e algumas pessoas foram levadas ao hospital, pois passaram mal por causa do spray de pimenta. Isso estragou com a festa de todo mundo.

RALO DE 50 REAIS PODE EVITAR ACIDENTES FATAIS EM PISCINAS

FANTÁSTICO, 12/01/2014 22h54

Afogamento é a segunda causa de morte de 1 a 9 anos de idade no Brasil. Veja medida simples que podem evitar acidentes em piscinas.





“Esta noite eu dormi no quartinho dela. “É uma forma de eu ainda sentir ela aqui. Porque parece que ela tá brincando ali embaixo e daqui a pouco está aqui”, diz Iêda Oliveira, mãe de Mariana.

O conforto de ilusão logo se desfaz.

“Onde você vai imaginar que você vai enterrar sua filha de 8 anos”, indaga Iêda Oliveira.

Os pais e a irmã enterraram Mariana há oito dias. A menina morreu fazendo o que mais gostava. “A Mariana é uma menina aquática. Ela adora água”, lembra Marco Aurélio Oliveira, pai de Mariana.

Mariana vivia na água. Mas nem toda a habilidade teria ajudado. Os cabelos dela foram sugados pelo ralo onde era puxada a água para o tobogã na piscina. Foi clube que a família frequentava há décadas, em Belo Horizonte.

Mariana estava com os tios e primos. Os pais ouviram de testemunhas que o salva-vidas estava longe e demorou para chegar. “Quando perguntaram para o salva-vidas onde que desliga a bomba, ele falou: eu não sei onde que desliga a bomba”, conta a mãe.

Desligada a bomba, a sucção pararia. Ninguém sabia o que fazer. “Não tinha uma tesoura, não tinha uma faca. Não tinha nada. Soube que alguém foi quebrar uma garrafa pra corta com caco de vidro. E não conseguiram. E nisso a Mariana debaixo da água”, conta.

A força da sucção foi tão grande que mesmo muitos adultos puxando não conseguiram liberar Mariana do tubo. “Uma coisa pra mim é clara: a minha filha não morreu. Ela foi sugada por uma bomba que promoveu a morte dela”, diz o pai.

No mesmo sábado, dia 4, morreu Kauã dos Santos, de 7 anos em Brasília, depois de ficar 3 dias em coma. Ele se afogou ao ficar dez minutos submerso, com o braço preso no buraco de sucção da piscina de um condomínio em Caldas Novas, Goiás, onde a família estava hospedada.

Na segunda-feira, mais uma vida sugada pelo ralo. Naysla Sestari, de 11 anos, também ficou com os cabelos presos. Foi na piscina da casa dela, em Linhares, Espírito Santo.

Em um apartamento em São Paulo, as notícias revivem a dor de Odéle.

“16 anos minha filha sofreu um acidente idêntico ao que aconteceu nos primeiros dias de janeiro, onde crianças foram a óbito, morreram. E de 16 anos pra cá nada foi feito pra melhorar a segurança nas piscinas”, afirma Odele Souza, mãe de Flávia.

Odele tem em casa a lembrança permanente do que aconteceu com Flávia. Presa pelos cabelos ao fundo, a menina teve lesão cerebral. Entrou em coma. Tinha 10 anos. E se tornou uma adulta sem nunca recuperar a consciência.

“16 anos depois tem dias que eu acordo e falo assim, que bom se tivesse sido só um pesadelo. Eu me levanto, caminho, dou alguns passos e ela tá no quarto dela, ela tá lá inerte. É uma rasteira que a vida nos dá”, lamenta Odele.

Uma rasteira que ela enfrenta lutando. Tem um blog, no qual escreve como se fosse um diário de Flávia. Um ponto de encontro que mobiliza outras famílias dispostas a impedir que tudo se repita.

“Não tem sentido uma criança de 10 anos passar o resto da vida vivendo em coma. E a forma que eu encontro pra dar um sentido a isso ao que aconteceu com a Flávia é evitar que outras crianças venham a ter o destino dela”, desabafa a mãe.

Odele faz parte de uma comissão que tenta tornar lei as recomendações de segurança da ABNT, a Associação Brasileira de Normas Técnicas.

Mas sete projetos estão parados há anos no Congresso Nacional. O relator culpa o excesso de medidas provisórias e até as eleições pelo atraso. E promete aprovar as propostas - logo depois do verão. “Votar fim de fevereiro na comissão de seguridade e em março, já conversei com o presidente, a gente vota fim do mês”,garante o deputado Darcísio Perondi.

Fantástico - A gente pode voltar a falar em março com essa lei aprovada?
Darcísio Perondi - Com certeza. Eu ia concluir dizendo: me cobra na segunda quinzena de março.

Uma das mudanças propostas para a nova lei é a obrigatoriedade de ralos anti-aprisionamento de cabelos.

Você vê uma simulação do que aconteceria com uma criança, nesse caso com os cabelos compridos, se mergulhasse próximo a um ralo sem a sua devida tampa. “Pode ver que o cabelo é todo sugado. E a criança provavelmente ficaria presa e se afogaria na piscina”, explica Augusto César Araújo, vice-presidente da Associação dos Fabricantes de Piscina. Veja no vídeo.

Em seguida, outra simulação com o mesmo ralo, só que com uma tampa mais moderna.

A bomba dos dois ralos é a mesma. A única diferença entre elas é a tampa anti-sucção.

“A sucção da bomba, como ela tá dividida numa tampa mais moderna, numa tampa com área maior, o cabelo não fica preso. Ele desliza pela tampa, mas não tem força pra ser sugado, ele não consegue entrar pelos furos”, explica.

E quanto custa um ralo destes? “Uma tampa nova dessa aqui ao custo de R$ 50 você evita qualquer tipo de acidente na sua piscina”, completa Augusto.

Outra medida simples: sempre que a piscina estiver sendo usada, deixe as bombas desligadas.
As crianças devem ser orientadas a não se aproximar dos ralos. E mesmo que as que sabem nadar, precisam da supervisão de um adulto.

O médico especialista em afogamento recomenda que todo adulto aprenda a fazer respiração boca a boca e massagem cardíaca. O tempo de esperar a ambulância pode ser grande demais.

“Afogamento é a segunda causa de morte de 1 a 9 anos de idade no Brasil. Só pneumonia mata mais as crianças do que afogamento. A gente tem que tomar uma atitude. A gente não pode ficar parado.

Antônio não ficou. Equipou sua academia, no Rio. Cercas de proteção isolam as piscinas. Travas de segurança nos portões evitam que um minuto de distração leve uma criança a se afogar.

Antônio antecipou aqui outras coisas da proposta de lei.Se você tem piscina ou frequenta uma, deve saber:

- Um botão de pânico deve ser instalado perto da piscina, pra ser acionado quando houver algum problema ou o ralo estiver puxando demais. Ele desliga a bomba.

- O ideal é instalar mais de um ralo na piscina. Assim, a pressão se divide entre eles.

- Os ralos devem estar, no mínimo, um metro e meio um do outro, para que uma criança não possa obstruir os dois ao mesmo tempo. Se um ralo estiver obstruído, o outro continua puxando água e não forma a pressão que prende pés e braços.

Fantástico - Como você se envolveu na questão de segurança de piscinas?
Antônio - Infelizmente há três anos atrás tive uma filha que morreu num acidente presa pelos cabelos numa piscina residencial.

Luiza morreu numa festa de aniversário na casa de uma amiguinha. Tinha 10 anos.

“A tragédia não vai embora nunca. A marca vai ficar pra sempre. “Agora você tem duas opções. Você pode ficar agarrado no drama, na tragédia, e pode fazer alguma outra coisa. E eu acho que optei por fazer outra coisa”, conta Antônio Santos, dono de academia.

Se dedicar à vida das nossas crianças é o tributo dos pais às suas crianças que se foram.

“Ela era um anjo, foi direto pro céu. Ela agora tá olhando e dizendo o seguinte: e aí, gente, vai continuar do jeito que tá? Vai esperar morrer mais quantos, Brasil afora?”, diz o pai de Mariana.

“Eu ainda vou deitar nessa cama, ainda vou chorar muito. Já abracei todos os bonequinhos dela. Eu vou do luto à luta”, Iêda Oliveira, mãe de Mariana.

O QUE FAZER EM CASOS DE AFOGAMENTO

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

OS RISCOS DO VERÃO

ZERO HORA 03 de janeiro de 2014 | N° 17662


EDITORIAIS



Oelevado número de mortes por afogamento na virada do ano, em muitos casos envolvendo crianças e adolescentes, chama a atenção para a necessidade de mais atenção aos riscos oferecidos pelo verão, sempre potencializados pelas temperaturas recordes. O cenário que se repete anualmente foi apresentado na edição de ontem deste jornal, com mais um balanço trágico do feriadão no Estado. Foram 14 mortes por afogamento em apenas seis dias. É um número inaceitável, por mais que se considere o fato de que esse é um período de aumento da imprudência e dos acidentes. Iniciativas governamentais, de ONGs e entidades comunitárias, que têm procurado, pela divulgação de informações, evitar essas ocorrências, merecem ser copiadas e ampliadas, especialmente em áreas de atração de turistas com reduzido suporte de equipes de emergência.

É esse o caso de balneários de rios e açudes, onde raramente se registra a presença de salva-vidas e onde mais acontecem mortes. A desinformação também mata e, por mais que pareça óbvio, é pela repetição de alertas – como acontece em relação às estradas – que se orientam os jovens e se cria a consciência da responsabilidade entre os adultos. Não são poucos os casos fatais registrados neste e em anos anteriores em que as vítimas foram atraídas pela falsa sensação de segurança de córregos só aparentemente inofensivos. Banhos de mar ou em rios, arroios, açudes e piscinas implicam ameaças para as quais crianças e adolescentes precisam ser alertados desde cedo, e essa é uma missão que compete, em primeiro lugar, aos familiares. Campanhas de esclarecimento terão efeito reduzido se não forem acompanhadas por atitudes de bom senso.

É nesse contexto que a natural imprudência de crianças e adolescentes deve ter o contraponto da vigilância. Infelizmente, acidentes fatais, nessas circunstâncias, quase sempre resultam da negligência de quem deveria estar por perto. Respeitar a orientação dos órgãos ambientais e de segurança é tarefa das quais os pais, familiares e responsáveis por crianças e adolescentes não podem se eximir.