Este Blog retratará o descaso com a Defesa Civil no Brasil; a falta de políticas específicas; o sucateamento dos Corpos de Bombeiros; os salários baixos; a legislação ambiental benevolente; a negligência na fiscalização; os desvios de donativos e recursos; os saques; a corrupção; a improbidade; o crime organizado e a inoperância dos instrumentos de prevenção, controle e contenção. Resta o sofrimento das comunidades atingidas, a solidariedade consciente e o heroísmo daqueles que arriscam a vida e suportam salários miseráveis e péssimas condições de trabalho no enfrentamento das calamidades e sinistros que assolam o povo brasileiro.

domingo, 15 de janeiro de 2012

OS INTERDITADOS

FLÁVIO TAVARES, JORNALISTA E ESCRITOR - ZERO HORA 15/01/2012

O Rio Guaíba está secando. Não é metáfora nem exagero. É claro que o curso d’água não desaparecerá, mas os bancos de areia já são visíveis a olho nu e as ilhas passaram a ter praias. O caudal dos afluentes diminuiu e até o Jacuí perdeu a imponência. Desde que, há 40 anos, o cais foi abandonado e deixou de ser ponto de entrada e saída de nossa riqueza agroindustrial, a Capital vive de costas para o rio e não vê suas grandezas nem dificuldades.

A estiagem prolongada que racha a terra estiola também os rios. Dependemos deles (são o suporte da vida), mas os tratamos como inimigos, neles despejando lixo e peste. E encaramos as secas como nos tempos bíblicos, como ira de Deus.

Ano a ano, há secas periódicas, menores ou maiores, mas nenhum governador buscou soluções. Não sugiro mágicas nem rezar pedindo chuva (como se faz na zona rural, num terno exemplo de fé), mas em engajar o empresariado numa ação conjunta para resistir às agruras da seca, protegendo capões e matas ciliares, aproveitando as enxurradas em açudes rurais e reservatórios urbanos, por um lado, e economizando água, de outro.

Ou, na atual inércia governamental, o Estado já não se interessa por isto e só busca arrecadar impostos? Será por isto que o governo confia na cobiça de quem está interessado, apenas, no lucro imediato a curto prazo e nem liga para a vida e o futuro?

Uma de nossas riquezas rurais, a rizicultura, esbanja imensa quantidade de água. Poucos arrozeiros conhecem os métodos modernos que combinam racionamento com alto rendimento, mas o Irga (controlado pelo governo e que já foi exemplar) não está nem aí em termos tecnológicos!

O Estado e parte dos municípios estão nas mãos de gente que nunca desenvolveu nada produtivo e passou a vida catando votos em tempo de eleição. Chamam a isto “fazer política”, quando é apenas habilidade em plantar futricas e colher intrigas.

Para estrear 2012, por exemplo, o prefeito da Capital ameaçou “interditar” o Palácio Piratini por não ter extintores de incêndio! Não se trata de zelo do prefeito, mas apenas birra ridícula. Ou represália, pois acha que o governador está por trás da decisão do Ministério Público de exigir “regras de segurança” para o centro recreativo-cultural da Usina do Gasômetro e para o Carnaval no Porto Seco...

Por que reacender as pequenezes dos velhos fuxicos de quando o atual prefeito militava no PT em grupo oposto ao do atual governador?

Interditar o Palácio Piratini por falta de extintores? E a prefeitura, com o telhado do gabinete do prefeito infestado daquelas pombas que proliferam entre si, mãe com filho, irmão com irmã, numa degeneração que transmite enfermidade aos humanos e povoa o centro da cidade?

Será ruim preservar a Usina do Gasômetro ou evitar tragédias no Carnaval? Se a prefeitura não está alerta nem trata do conjunto da cidade, será mau que o Ministério Público aponte falhas ou soluções?

Por que preocupar-se com a beleza dos fogos de artifício ou com o Carnaval e ignorar a segurança dos cidadãos? Será porque isto pode “dar votos”, já que, nas tragédias, culpamos “a fúria da natureza”, não o nosso desleixo?

Bancário de profissão, o atual prefeito foi correto dirigente sindical, mas se porta como o burocrata que só vê o que está à vista nos papéis. E se tivesse a humildade de entender que não foi votado e que se limitou a ser um mudo acompanhante de José Fogaça, o prefeito eleito? O vice-prefeito Fortunati tem todo o direito a substituí-lo e exercer o cargo, mas não pode agir como um imperador ungido por vontade divina, um ente acima dos demais.

Ou, amanhã, interditamos o rio poluído e seco!

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