Este Blog retratará o descaso com a Defesa Civil no Brasil; a falta de políticas específicas; o sucateamento dos Corpos de Bombeiros; os salários baixos; a legislação ambiental benevolente; a negligência na fiscalização; os desvios de donativos e recursos; os saques; a corrupção; a improbidade; o crime organizado e a inoperância dos instrumentos de prevenção, controle e contenção. Resta o sofrimento das comunidades atingidas, a solidariedade consciente e o heroísmo daqueles que arriscam a vida e suportam salários miseráveis e péssimas condições de trabalho no enfrentamento das calamidades e sinistros que assolam o povo brasileiro.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

O LÍDER QUE SANTA MARIA ELEGEU

ZERO HORA 31 de julho de 2013 | N° 17508

SANTA MARIA 27/01/2013

“Sou o líder que a cidade elegeu”. Cezar Schirmer Prefeito de Santa Maria


O prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB), falou ontem ao Diário de Santa Maria, por duas horas, em seu gabinete, sobre as polêmicas envolvendo sua gestão desde a tragédia da boate Kiss. Não escondeu um certo ressentimento quanto às críticas que recebeu desde o incêndio e ao fato de ter ficado no terceiro lugar na lista dos responsáveis pela tragédia (citado por 68% dos entrevistados, e isentado de responsabilidade por 27,8%), conforme pesquisa do Instituto Methodus encomendada pelo Grupo RBS e publicada no último fim de semana. Na entrevista, o prefeito prometeu exercer o mandato até o final. Após a conversa, Schirmer andou pela Avenida Rio Branco. Foi abordado por 10 pessoas – duas fizeram pedidos e outras apenas cumprimentaram o prefeito, que foi simpático e atencioso.

Leia trechos da entrevista

Pergunta – Como homem que responde pela prefeitura, hoje, o senhor sente que poderia ter feito algo antes da tragédia da Kiss?

Cezar Schirmer – Eu asseguro que a prefeitura cumpriu rigorosamente as leis. Houve fiscalização? Houve. Houve as exigências dos documentos estabelecidos pela lei na instalação da boate? Houve. Houve medidas no sentido de coibir algum abuso, um ou outro atraso? Houve. Está tudo nos documentos já fornecidos à imprensa, à polícia, ao Ministério Público ou ao Judiciário.

Pergunta – O senhor se arrepende de algo que disse ou fez depois da tragédia?

Schirmer – Eu falei pouco, depois da tragédia. Como prefeito, tinha a responsabilidade de acalmar os ânimos, de não polemizar. Confesso que tive muita vontade de falar, e silenciei porque achei que a minha contribuição naquele momento era o silêncio, para não estimular o conflito. Do ponto de vista pessoal, eu, Cezar Schirmer, preservando o meu interesse, o meu nome, devia ter falado muito mais. Agora, como prefeito, agi corretamente, não me arrependo.

Pergunta – O arquiteto Rafael Escobar, do Escritório da Cidade, exigiu 29 modificações de segurança para adequar o prédio onde havia um pré-vestibular para instalar uma boate. Graças a normas legais, a Kiss recebeu alvará e licença de funcionamento mesmo sem ter aprovado tal projeto. A prefeitura em nada contribuiu para o incêndio?

Schirmer – Quem trata de incêndio é o Corpo de Bombeiros. A prefeitura não tem nenhuma inserção nesse processo. Sobre o que disse o servidor da prefeitura, tem de esclarecer: uma questão é a obra, e quem trata é a Secretaria de Mobilidade Urbana. Aí apresenta o projeto técnico, planta, enfim. Isso é examinado e depois tem o habite-se. Outra questão é o uso econômico daquela obra. Você tem um espaço construído, e cada vez que muda o destino daquele local, é um procedimento relativo ao uso econômico do imóvel. Ali se exige alvará do bombeiro, e, dependendo, alvará sanitário, licença ambiental, documentos etc. E isso tem sido feito. No caso da obra da Kiss, as exigências para o uso econômico daquele espaço foram cumpridas.

Pergunta – Como avalia ter ficado em terceiro (68%) na lista de responsáveis?

Schirmer – Uma frase, que não é minha, diz: uma mentira muitas vezes dita passa a ser verdade. Então, não foram poucos os que, por razões diferentes, martelavam sempre nessa questão. Eu repito: a prefeitura de Santa Maria não contribuiu para que isso tenha ocorrido. O tempo é o senhor da razão. Tenho absoluta convicção que o tempo vai repor essas questões todas no devido lugar.

Pergunta – A postura que o senhor adotou logo após a tragédia – uma postura de advogado de defesa da prefeitura, afirmando, por exemplo, que a responsabilidade era do Corpo de Bombeiros – pegou mal em boa parte da comunidade. Hoje, o senhor avalia que foi uma postura equivocada?

Schirmer – Nunca falei isso. O que disse era que a prefeitura não tinha responsabilidade. E, obviamente, se se exige um alvará de Bombeiros, posso falar do alvará dos Bombeiros. Do ponto de vista pessoal, devia ter falado mais, mas como prefeito agi corretamente.

Pergunta – O governador Tarso Genro afastou o comandante local dos Bombeiros assim que o nome dele surgiu na investigação da Polícia. E a pesquisa mostra que mais pessoas o tiram do rol de responsáveis (49,5%) do que o incluem (43,8%). Na finalização do inquérito da Polícia, o senhor se limitou a dizer que analisaria a situação caso algum dos secretários indiciados – Miguel Passini e Luiz Alberto Carvalho Júnior – colocasse o cargo à disposição. O senhor acha que essa postura, de cortar na carne, ajudou a tirar o governador do rol de responsáveis?

Schirmer – Ainda achei alto o percentual de responsabilização do governador. Por que, afinal de contas, achar que o governador é responsável? Ele está lá em Porto Alegre. Achar que alguém ou alguma pessoa de uma cidade do Interior cometeu algo inadequado é achar que um prefeito saiba tudo que acontece numa prefeitura. É claro que não sabe. Agora, no caso da boate, eu avaliei os documentos e percebi que não havia nenhuma responsabilidade dos secretários e servidores, foi a minha compreensão.

Pergunta – A cidade não se ressente da falta de um líder, alguém que faça convergir os esforços de recuperação? O senhor se acha em condições de fazer isso ou já passou pela sua cabeça renunciar, abrir mão de governar Santa Maria até dezembro de 2016?

Schirmer – Vou governar até o fim. Sou o líder que a cidade elegeu e me sinto apto a cumprir as funções desejadas. Porém, repito que vivemos um momento especial e que temos de olhar para a frente.

Pergunta – O senhor pretende concorrer novamente? Acha que tem chance de ganhar nas urnas? Qual deverá ser o seu futuro político?

Schirmer – A RBS gosta de me fazer essa pergunta. Vocês querem saber o que vou fazer daqui a 3,5 anos. Duvido que a maioria das pessoas saiba o que vai fazer daqui a três meses. Quero, sim, terminar o meu mandato, e bem. Cumprir meus propósitos e fazer um governo melhor do que o primeiro, apesar de tudo.

Pergunta – Em entrevista recente, publicada pelo jornal O Globo, é creditada ao senhor uma declaração sobre os enterros de vítimas ricas (“Não vou pagar enterro para rico”) que gerou polêmica.

Schirmer – A frase tal qual publicada não foi dita. Eu estava reunido no meu gabinete e o meu assessor disse que tinha um jornalista do O Globo ao telefone dizendo que a prefeitura tinha recebido R$ 300 mil do governo federal para pagar funerais e não tinha feito nada. Eu falei com o jornalista e disse que não veio nenhum recurso. Falei que nós fizemos um acordo com as funerárias, em que se estabeleceu um limite de R$ 2,5 mil para aqueles que quisessem. Era um valor médio de sepultamento, e acima disso não podemos pagar. Sempre pagamos para pessoas pobres. Agora, a prefeitura não pode pagar funerais para pessoas de posses. Porém, uma frase não dita, tirada de contexto, ficou perdida, parecendo uma insensibilidade minha.

Pergunta – Esse tipo de episódio lhe deixa chateado?

Schirmer – Não, mas agora vou tomar mais cautela. Vou responder por e-mail as perguntas e ser obrigado a mudar a relação com a imprensa.

TICIANA FONTANA

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